18 junho 2018

A pobrezinha

A pobrezinha anda apaixonada. Está cheia de sonhos de ir pelos ares a voar diretamente para os braços dele. 

Esta é a namorada do meu ex marido. Cheia de sonhos da treta! 

Nunca me falou. No entanto, não me larga nas redes sociais. Como sei? Ela, a pobrezinha, deixa rastos. Espero que sem querer. Por que se for propositadamente... bem, foda-se! Era lata a mais para uma pobrezinha só. Se for sem querer, desculpo. É normal a curiosidade de saber quem eu sou. 

Eu sou a Ana, a Lu. A Ana Luísa. Tenho 573 anos e nasci em Vénus, no dia 31 de Agosto de um retardado ano qualquer, na via láctea. Digo muitas caralhadas, ao ponto de hoje ter acordado com vontade aguda de ouvir aquela música dos Ena Pá 2000, a Marilú. Fumo. Bebo vinho. Tenho 9 tatuagens. Gosto de ler gajos portugueses ou lusófonos. E não tenho paciência para princesas. Sou uma ave rara, que não se mete na vida de ninguém! Digo, à boca cheia, que sou uma fada, que é afirmar que faço magia. E, no fim de contas, é tudo mentira. 

Por isso, não há merda de rede social nenhuma que vá explicar quem eu sou. Fiz mais de cinco anos de psicanálise e ando ainda à procura do tempo. 

A pobrezinha anda apaixonada. E eu não tenho nada a ver com isso. Mas deixem que vos diga: isto de ter fãs é do caralho! 

Beijos e abraços 

Atenciosamente 
Lu 

20 abril 2018

Este não é o primeiro dia de praia do ano


Estar na praia em abril, no Porto, não é muito incomum. Estar na praia em janeiro, no Rio de Janeiro, é o expectável. Se lá estiveres, claro. Chegares a Portugal com bronze na pele, em janeiro, por teres estado numa praia no Brasil, pode acontecer. No entanto, dá nervos, o tal do bronze, às pessoas que não o puderam fazer. 

Há tantas outras coisas que dão nervos às pessoas. Depende de muitos fatores. Mas depende mais de ti. Há muitas coisas que me davam nervos e que, agora, já não dão. Talvez tenha mudado a perspectiva depois de ter passado tanto tempo de cabeça para baixo. Ser mãe ajudou também nesse voltear as coisas que dão nervos. Agora, dão-me muitos mais nervos ter a casa arrumada por não ter o meu filho em casa. Antes, dava-me nervos incríveis quando a casa ficava, por algum motivo, desarrumada. 

Será então a tal perspectiva. Ou a forma como escolhes as cores com que pintares a cabeça. Ou o coração. Se te der nervos o amarelo, olha para o amarelo até que entendas por quê! Quiçá um dia o amarelo seja uma daquelas coisas que te apraz muito, que te deixa feliz, que te enche o peito e te rasga largos sorrisos. Mas, se assim não for, deixa lá o amarelo. Nem penses mais nele. Pois ele nada te vai alimentar, a não ser que sejas alguém sempre com nervos, alguém dominado por um estado de quem está com nervos incríveis só por não largar uma coisa que lhe deixa os cabelos em pé e, pior, as atitudes todas fora de controlo. 

A mim, as coisas já não me dão nervos. Só as pessoas de quem gosto. E é isso. E o futebol. De resto, tenho a palete de cores todas aqui à mão de semear. 




14 abril 2018

Estóicos e hedonistas ou oitava guerra mundial

Já há muito tempo sinto que a vida não é um conjunto de salas, onde tomamos chás de diferentes sabores, uns com os outros, uns e outros, ou desta vez uns e depois outros.

Há sempre um fio de prata que nos une. 

Parece-me estar imune já a definições absolutas. No entanto, enquanto essas salas se sobrepõe umas às outras, eu própria fico incrédula ante o facto de como as coisas me caem no regaço. Talvez seja só caso de perceber que me torno, cada vez mais, dona e senhora de uma coisa só - a responsabilidade que tenho naquilo que sinto. Seleciono o que sacudir ou acariciar, na justa medida do que me cai bem. Se para muitos não é o melhor, para mim será, naquela determinada conjuntura hipotética. 

E nisso, no pensar o campo de hipóteses que se apresentam, hoje todas me parecem possíveis, exequíveis, plausíveis. Não preciso fechar os olhos com muita força. Um pouco chega para desenhar aquela que mais gostava, desejando em golfadas de ar para dentro, assim com quem vai engolir o mundo de uma vez. Mas isso, é só nos sonhos que tenho, retalhados em poucas e escassas horas e que são martelados por maratonas de afazeres. 

E aí não há guerra mundial contra o tempo, o cinzento desvanece para uma brancura fresca. Não há renúncias, nem há viver intensamente. Mas isso, é só nos sonhos. Os que tenho nas horas vagas das merdas que vejo passar-me defronte dos olhos. 




20 fevereiro 2018

volume único

Não consigo. Não dá para andar para trás. Não nisto. 

Soa quase a piada cósmica. 

Houve tempos em que não queria estar em mais lado nenhum. Era tudo desmensurado e, mesmo assim, cabia-me bem nas mãos. 

Insisto em dizer, como noutros momentos disse, que tenho as mãos pequenas e magras. Os meus dedos não se encostam totalmente uns aos outros de tão adelgados serem. Teria dado uma distinta pianista. Fiquei-me por ser uma notável promessa. Embora nunca tenha estudado ballet, arranho bem o francês. 

Estes e mais motivos servem para dizer que tenho jeito para quase tudo. 

Quando olho para trás vejo algumas desistências lógicas, perfeitamente justificadas na minha conceção, na minha narrativa e que são coerentes. 

Não isto. 

Isto não devia ter levado tanto tempo. E eu não devia ter segurado com tanta força, nestas mãos que gritam fragilidade anatómica. Segurei, amimei, tratei, suportei e, ate não poder mais, larguei. Tudo isso me faz saber que hoje, ao sentar-me para redigir os tópicos, não consigo voltar atrás. Concentrei-me em excesso nas mãos e no que transportavam. Fiz magia com elas, que desenharam letras e letras e carinhos e asseverações indeléveis. Não sei como fiz isto. É inaceitável olhar para trás e escrever tópicos deslaçados de um emaranhado de mim, de uma história que só teve um capítulo. 

Não passará de um tomo solto. 

look-out-sunshine - DeviantArt


Culpo-me as mãos. As minhas.

22 janeiro 2018

em cinco minutos

Por acaso, esbarrou-se numa avalanche de coisas. Ora eram bolas de cristal esfumado, ora eram ervas daninhas que insistiam em crescer. Caía de joelhos, agarrava-se ao chão com toda aquela força natural, compondo o cabelo num golpe militar de que não se sabia onde teria sido aprendido. Tropeçou numa cama de algodão doce sem saber. E só sabia que sentia a pele melada de tanto açúcar. Fechou os olhos para não ver, pensou em mil e um motivos para nem perceber que estava a cair, queda livre, desarticulada. Os pés, agora levantados do chão, estavam leves e só sentia a pancada na cabeça como se a vida lhe gritasse, após dias a fio a avisar, ACORDA! 
As lesões e as mazelas não estavam assim à vista desarmada, mas sentiam-se pelas costas abaixo, como se tivesse sido empurrada por um sem número de mãos indistintas, desconhecidas. Tudo lhe parecia desconhecido. E assim, caiu e bateu com a testa no meio do chão, aquela calçada portuguesa, preta e branca, cubos e cubos tortos, ali a contorcerem-se. Acertou com a testa e abriu um lanho. A cabeça ficou dorida e depois ficou vazia. Vazia. E depois ficou distante, longe dela mesma, num novelo de lã azul. 
Os braços deixaram de ter posição e descansou ali pousada, aterrada, estupefacta e feliz. 




04 novembro 2017

dois portuenses a tomar café em Lisboa

Ver Lisboa de cima fê-la parecer inacreditavelmente pequena. Daquele ângulo, não propositado mas sim apenas acidental, tal qual eles, Lisboa estava organizada colorida a rosa e amarelo, ponteada a branco sujo. Estava bonita. Eles eram os dois portuenses, que mais tarde caminhariam pelas ruas de Lisboa. Não estariam a passear, pouco falariam. O mais importante era proteger que a saia dela levantasse com a ventania. As palavras não importariam nada. Mais nada. As perguntas dariam lugar a passada larga, apressada para lado nenhum, pois não haveria lado nenhum, não com aquela atitude que seria como quem quisesse fazer de conta que tudo seria tão inocente. Qual inocência seria essa se a saia dela estaria prestes a esvoaçar? Qual inocência seria essa se ninguém ali saberia em rua se poderia sentar apenas e falar falar falar. O que seria óptimo era os pensamentos falarem também. Porque gritaria gritos estúpidos, parvalhões, cheios de bs em vez de vs, com aqueles gestos que riscariam o ar. Lisboa não estava preparada para isso, com certeza. Por isso mesmo, aqueles dois portuenses ali perdidos em passos sem rumo, rápidos e magoados, histéricos e indignados, que nem teriam tanto assim a carregar, não poderiam coexistir ali naquelas ruas pontilhadas as cores, todas alegres e confortáveis. E foi por isso que ela nem pousou ali, nem ele a esperou para lhe a levar a passear. 
Passaram, e isso é facto, a ser feitos de cera à espera de uma qualquer noite de fim de Verão para, assim, apenas derretem até à memória. 



14 outubro 2017

olha lá a minha estante aqui

Isto de passar muito tempo em hotéis, táxis e aeroportos pode tornar-se solitário. Porém, nada tem de vazio. Há sempre pessoas a passar, com mais ou menos pressa, largando um ou outro sorriso rápido, quase cúmplice, como quem diz "olá, é isto que tem de ser". Às vezes, lá se pára por um momento, tornando uma conversa rápida, em que se deixam cair coisas perfeitamente aleatórias, com mais ou menos sentido, com mais ou menos densidade. A verdade é que há sempre alguma forma de encontro. E, por mais breves que sejam, não se pode ficar indiferente. 

Perco algum tempo, não no sentido de perda oca, mas porque me deixo levar, em devaneios coloridos sobre este e aquele, sobre os que vão passando. 




Em Barajas, recordo-me agora, ter estado a conversar com uma mulher nos seus sessenta, Peruana, que dedicou a vida a ajudar alguma das muitas comunidades religiosas a alimentar a população de Lima, no Peru. Dizia-me o quão difícil foi organizar tudo para arranjar arroz e milho para as pessoas. Contava-me que endureceu os dedos a amassar pão para as pessoas. Explicava-me o quão difícil foi arranjar um espaço e lápis para ensinar mulheres a ler e a escrever. Falava-me orgulhosamente do padre, do qual não me lembro do nome, homem trabalhador e preocupado, afirmava. Era pequena e morena. A sua voz era doce e sucinta, cheia de esperança. Quando entramos no avião, não a tornei a ver. Até hoje. Já passaram 5 meses. Verdade é que se a tornasse a ver, provavelmente não a reconheceria. Só a sua história me assalta a memória, de quando em vez, afincando-se feliz, prazerosa. Na minha cabeça, imagino-a no bairro de Callao, em Lima, que posteriormente vi de passagem, atarefada, inquieta e cheia de vontade, partilhando-se por uma causa nobre, deslizando pelo meio de caminhos castanhos e verdes, a contornar tijolos empilhados em todo o lado.  Com ou sem deus por trás. Posso dizer até que, para mim, ela passou aquilo tudo sem dizer que lhe doía a cabeça, sem se queixar dos joelhos ou das costas, sempre com roupas do mesmo feitio, o mesmo corte de cabelo, sem perfumes. Ali só erguia aquela vontade inabalável. Por ali, azafamada, sem tempo de lhe doer a alma. 

Passou. 

No final do dia, todos somos pessoas com as nossas estantes pessoais. Transporta-mo-las com noção clara de que, quando se apagam as luzes dentro de um avião (especialmente no voo de longo curso), o maravilhoso milagre de estarmos vivos está jogado ao ar, nas mãos de um qualquer bravo piloto. Sabemos que quando se acenderem, vamos estar perto do destino, o mesmo onde escrevermos mais algum pedaço para a nossa estante. E que no meio de tantas horas vazias, de olhares de estranhos, ar condicionado, microfones estridentes, barulho de avião, malas e maletas, poderemos orgulhosamente tirar uma história daquelas magníficas. Partilhamo-las mais connosco próprios. Detenho-me com este sentimento de que, na verdade, todos temos é saudades de casa.