14 abril 2018

Estóicos e hedonistas ou oitava guerra mundial

Já há muito tempo sinto que a vida não é um conjunto de salas, onde tomamos chás de diferentes sabores, uns com os outros, uns e outros, ou desta vez uns e depois outros.

Há sempre um fio de prata que nos une. 

Parece-me estar imune já a definições absolutas. No entanto, enquanto essas salas se sobrepõe umas às outras, eu própria fico incrédula ante o facto de como as coisas me caem no regaço. Talvez seja só caso de perceber que me torno, cada vez mais, dona e senhora de uma coisa só - a responsabilidade que tenho naquilo que sinto. Seleciono o que sacudir ou acariciar, na justa medida do que me cai bem. Se para muitos não é o melhor, para mim será, naquela determinada conjuntura hipotética. 

E nisso, no pensar o campo de hipóteses que se apresentam, hoje todas me parecem possíveis, exequíveis, plausíveis. Não preciso fechar os olhos com muita força. Um pouco chega para desenhar aquela que mais gostava, desejando em golfadas de ar para dentro, assim com quem vai engolir o mundo de uma vez. Mas isso, é só nos sonhos que tenho, retalhados em poucas e escassas horas e que são martelados por maratonas de afazeres. 

E aí não há guerra mundial contra o tempo, o cinzento desvanece para uma brancura fresca. Não há renúncias, nem há viver intensamente. Mas isso, é só nos sonhos. Os que tenho nas horas vagas das merdas que vejo passar-me defronte dos olhos. 




20 fevereiro 2018

volume único

Não consigo. Não dá para andar para trás. Não nisto. 

Soa quase a piada cósmica. 

Houve tempos em que não queria estar em mais lado nenhum. Era tudo desmensurado e, mesmo assim, cabia-me bem nas mãos. 

Insisto em dizer, como noutros momentos disse, que tenho as mãos pequenas e magras. Os meus dedos não se encostam totalmente uns aos outros de tão adelgados serem. Teria dado uma distinta pianista. Fiquei-me por ser uma notável promessa. Embora nunca tenha estudado ballet, arranho bem o francês. 

Estes e mais motivos servem para dizer que tenho jeito para quase tudo. 

Quando olho para trás vejo algumas desistências lógicas, perfeitamente justificadas na minha conceção, na minha narrativa e que são coerentes. 

Não isto. 

Isto não devia ter levado tanto tempo. E eu não devia ter segurado com tanta força, nestas mãos que gritam fragilidade anatómica. Segurei, amimei, tratei, suportei e, ate não poder mais, larguei. Tudo isso me faz saber que hoje, ao sentar-me para redigir os tópicos, não consigo voltar atrás. Concentrei-me em excesso nas mãos e no que transportavam. Fiz magia com elas, que desenharam letras e letras e carinhos e asseverações indeléveis. Não sei como fiz isto. É inaceitável olhar para trás e escrever tópicos deslaçados de um emaranhado de mim, de uma história que só teve um capítulo. 

Não passará de um tomo solto. 

look-out-sunshine - DeviantArt


Culpo-me as mãos. As minhas.

22 janeiro 2018

em cinco minutos

Por acaso, esbarrou-se numa avalanche de coisas. Ora eram bolas de cristal esfumado, ora eram ervas daninhas que insistiam em crescer. Caía de joelhos, agarrava-se ao chão com toda aquela força natural, compondo o cabelo num golpe militar de que não se sabia onde teria sido aprendido. Tropeçou numa cama de algodão doce sem saber. E só sabia que sentia a pele melada de tanto açúcar. Fechou os olhos para não ver, pensou em mil e um motivos para nem perceber que estava a cair, queda livre, desarticulada. Os pés, agora levantados do chão, estavam leves e só sentia a pancada na cabeça como se a vida lhe gritasse, após dias a fio a avisar, ACORDA! 
As lesões e as mazelas não estavam assim à vista desarmada, mas sentiam-se pelas costas abaixo, como se tivesse sido empurrada por um sem número de mãos indistintas, desconhecidas. Tudo lhe parecia desconhecido. E assim, caiu e bateu com a testa no meio do chão, aquela calçada portuguesa, preta e branca, cubos e cubos tortos, ali a contorcerem-se. Acertou com a testa e abriu um lanho. A cabeça ficou dorida e depois ficou vazia. Vazia. E depois ficou distante, longe dela mesma, num novelo de lã azul. 
Os braços deixaram de ter posição e descansou ali pousada, aterrada, estupefacta e feliz. 




04 novembro 2017

dois portuenses a tomar café em Lisboa

Ver Lisboa de cima fê-la parecer inacreditavelmente pequena. Daquele ângulo, não propositado mas sim apenas acidental, tal qual eles, Lisboa estava organizada colorida a rosa e amarelo, ponteada a branco sujo. Estava bonita. Eles eram os dois portuenses, que mais tarde caminhariam pelas ruas de Lisboa. Não estariam a passear, pouco falariam. O mais importante era proteger que a saia dela levantasse com a ventania. As palavras não importariam nada. Mais nada. As perguntas dariam lugar a passada larga, apressada para lado nenhum, pois não haveria lado nenhum, não com aquela atitude que seria como quem quisesse fazer de conta que tudo seria tão inocente. Qual inocência seria essa se a saia dela estaria prestes a esvoaçar? Qual inocência seria essa se ninguém ali saberia em rua se poderia sentar apenas e falar falar falar. O que seria óptimo era os pensamentos falarem também. Porque gritaria gritos estúpidos, parvalhões, cheios de bs em vez de vs, com aqueles gestos que riscariam o ar. Lisboa não estava preparada para isso, com certeza. Por isso mesmo, aqueles dois portuenses ali perdidos em passos sem rumo, rápidos e magoados, histéricos e indignados, que nem teriam tanto assim a carregar, não poderiam coexistir ali naquelas ruas pontilhadas as cores, todas alegres e confortáveis. E foi por isso que ela nem pousou ali, nem ele a esperou para lhe a levar a passear. 
Passaram, e isso é facto, a ser feitos de cera à espera de uma qualquer noite de fim de Verão para, assim, apenas derretem até à memória. 



14 outubro 2017

olha lá a minha estante aqui

Isto de passar muito tempo em hotéis, táxis e aeroportos pode tornar-se solitário. Porém, nada tem de vazio. Há sempre pessoas a passar, com mais ou menos pressa, largando um ou outro sorriso rápido, quase cúmplice, como quem diz "olá, é isto que tem de ser". Às vezes, lá se pára por um momento, tornando uma conversa rápida, em que se deixam cair coisas perfeitamente aleatórias, com mais ou menos sentido, com mais ou menos densidade. A verdade é que há sempre alguma forma de encontro. E, por mais breves que sejam, não se pode ficar indiferente. 

Perco algum tempo, não no sentido de perda oca, mas porque me deixo levar, em devaneios coloridos sobre este e aquele, sobre os que vão passando. 




Em Barajas, recordo-me agora, ter estado a conversar com uma mulher nos seus sessenta, Peruana, que dedicou a vida a ajudar alguma das muitas comunidades religiosas a alimentar a população de Lima, no Peru. Dizia-me o quão difícil foi organizar tudo para arranjar arroz e milho para as pessoas. Contava-me que endureceu os dedos a amassar pão para as pessoas. Explicava-me o quão difícil foi arranjar um espaço e lápis para ensinar mulheres a ler e a escrever. Falava-me orgulhosamente do padre, do qual não me lembro do nome, homem trabalhador e preocupado, afirmava. Era pequena e morena. A sua voz era doce e sucinta, cheia de esperança. Quando entramos no avião, não a tornei a ver. Até hoje. Já passaram 5 meses. Verdade é que se a tornasse a ver, provavelmente não a reconheceria. Só a sua história me assalta a memória, de quando em vez, afincando-se feliz, prazerosa. Na minha cabeça, imagino-a no bairro de Callao, em Lima, que posteriormente vi de passagem, atarefada, inquieta e cheia de vontade, partilhando-se por uma causa nobre, deslizando pelo meio de caminhos castanhos e verdes, a contornar tijolos empilhados em todo o lado.  Com ou sem deus por trás. Posso dizer até que, para mim, ela passou aquilo tudo sem dizer que lhe doía a cabeça, sem se queixar dos joelhos ou das costas, sempre com roupas do mesmo feitio, o mesmo corte de cabelo, sem perfumes. Ali só erguia aquela vontade inabalável. Por ali, azafamada, sem tempo de lhe doer a alma. 

Passou. 

No final do dia, todos somos pessoas com as nossas estantes pessoais. Transporta-mo-las com noção clara de que, quando se apagam as luzes dentro de um avião (especialmente no voo de longo curso), o maravilhoso milagre de estarmos vivos está jogado ao ar, nas mãos de um qualquer bravo piloto. Sabemos que quando se acenderem, vamos estar perto do destino, o mesmo onde escrevermos mais algum pedaço para a nossa estante. E que no meio de tantas horas vazias, de olhares de estranhos, ar condicionado, microfones estridentes, barulho de avião, malas e maletas, poderemos orgulhosamente tirar uma história daquelas magníficas. Partilhamo-las mais connosco próprios. Detenho-me com este sentimento de que, na verdade, todos temos é saudades de casa. 

13 agosto 2017

Coisas a cair

É mais fácil quando todos se calam e cai sobre mim este breu. Ajuda a ficar naquilo que se está a passar. 

Tirei os sapatos, os mesmíssimos que já não usava há anos. Magoaram-me o dia todo. A saudade é um pano somático escuro num dia com o sol a gritar. A saudade faz de tudo, como exagerar, como chorar prantos agoniados, como sorrir e correr dentro de casa. A saudade faz, também, um nada. Faz um silêncio, pausado e que de oco nada tem, nada é. 

Não atirei com nada para o chão porque não faço isso, a menos que me caiam coisas das mãos. Que me caiam as coisas das mãos. Das minhas mãos. Assim, recordo-me a pousar as coisas, nos devidos lugares, com certeza inabalável de que nada vai estar fora do sítio. Ali e acolá, lugares cativos de coisas que não são nada. 

Teria um certo glamour, daqueles vaporizados, de cortar a respiração, contar que me sentei no tapete de juta em frente a lareira, já agarrada a  um copo de vinho tinto, com as minhas unhas pintadas de tons pastel e com a blusa branca. Não foi nada disso. 

O que aconteceu foi sentar-me no sofá do costume, com as mãos a sustentar a cabeça, mãos essas que trazem já verniz vermelho estalado, um calo na mão esquerda e dores do pulso direito. Às vezes, acho que tenho um ferro quente, fininho como uma linha, a entrar-me no pulso. Lá se vai o glamour todo, até porque os meus cotovelos magros e escanzelados entram-me pelas coxas dentro e dói também. 

Dizia que me sentei no sofá. Fiz aquilo tudo que disse e, depois de um suspiro, para deixar sair o ar todo, aquela máscara toda, aquele teatro todo, recostei-me e dormi. Sonhei, como sonho a cada naco de sono, com coisas boas, coisas estranhas e coisas a caírem-me das mãos. A caírem-me constantemente das mãos. A escorregarem das minhas mãos magras, pequenas, com um calo numa delas, com verniz vermelho estalado, com dores de pulso, com dores estridentes que só me trazem à ideia um ferro fininho, quente, o grande estupor! 

Acordo para isso todos os dias, em golfadas de nervoso miudinho, em sobressalto de ter sonhado que tudo me cai ao chão. Ah, se cai. Terei mais calos ainda de as apanhar. Não há outro remédio e ate já sabem o que se diz em relação a isso. Até amanhã. 




03 julho 2017

Transparente

Hoje disse-te que o tempo não existe. Sei isso de cor e salteado. Porém, existes tu e todas as coisas que viste, que sentiste nos pés. Os mesmos que torceste tantas vezes. Deste tanto, mostraste tudo, foste incansável. Imparável. Tanto. Num rodopio, em linha recta, de tantas formas, que já nem te sabias. Tornaste-te transparente. Só tinhas roupas em cima de ti. E tarefas. Uma, duas, três... até ao infinito. Foste tanto que já nem eras tu mais. Eras tudo. 

E eu, que te vi chorar, abracei-te. Senti que tinhas 30 cavalos no peito, largados numa planície sem fim. Era tão estrondoso, que parecia que ias rebentar, que os cavalos iam irromper por ti fora. Rasgar-te o peito, dilacerar-te em pedaços, desse tudo que nem eras tu sequer. E nunca mais isso acontecia. Agarrei-te e disse-te que o tempo não existe. Então, acho que ficou ali um laçarote, agarrando-nos às duas, em que o tudo não é senão tu mesma, vestida de azul celeste, a domar cavalos e a coleccionar coragem. 

Coragem. Sim, eu sei que o tempo não existe! E por mais que ele te assobie, estridente, ordenando à correria que te obriga a aninhares-te aí no teu canto, não será certo que ele passe a existir. Ganha-se fôlego caminhando. Hoje podes vir as minhas cavalitas.