27 setembro 2011

Casacos de força



Ontem ia pela rua a caminho de me estirar no sítio do costume e só pensava em casacos. Ia com a percepção que tinha de escrever sobre os casacos. Juntava-se a certeza de que ninguém deve ter grande vontade de ler sobre casacos. Mas arrisco.

Estamos naquela fase do ano em que os casacos começam a fazer sentido. Eu, pessoalmente, ofereço grande resistência a pô-los em mim, por que me obstruem, nomeadamente, os movimentos. Só ouço o outro dizer Você deve andar pelo menos meia hora a pé, diariamente. Tem energia a mais. E, de facto, existem muitas coisas que me movem. Por vezes, até os casacos, meus e dos outros. Quem me lê, quem me vê, quem me sabe, já reparou que estar quieta é algo que não me assiste. Aprendi a descansar sobre bailados e brincadeiras e ver televisão, que tem se tornado enfadonho. É, então, fácil ser movida por motivos, sejam eles até casacos. E será fácil entender que os outros, com casacos ou sem eles, as vezes fiquem contagiados por esta inquietude.

Ontem, com os casacos na cabeça e a necessidade de os pensar, ela diz assim por de lá de trás Às vezes, você também fica nostálgica, cansada e com necessidade de estar quieta. Pois claro que fico. E claro que o reconheço. Por mais estúpido que possa parecer, até o estar quieta tem um motivo e geralmente é a confusão que os outros fazem, nomeadamente quando tiram o casaco e o pousam da minha mesa. Azáfamas internas e longas. Só me ocorre o Wishful Thinking e o Tu puxas pela meiguice.

Mas de casaco vestido só se ouve o escoado fluído de um flute de Champagne que caiu no goto. Estranhamente adocicou e a conversa leva-me às gargalhadas. Tenho de encontrar o tempo. Escrever de pé dá gozo, mas falta o tempo. De escrever, sim. Mas estou à procura do tempo, com ou sem casacos de força, mais ou menos translúcido e sem que me doa os olhos. Descubro-me, assim, de pé, outra vez, a olhar para o texto e vislumbrando os dedos enrubescidos de agarrar tanto o cabelo, que insiste em não ficar no lugar certo. Há coisas que teimam torcer para fora, quando deviam rolar para dento.

Metamorfoses. Borboletas. O calor que se foi. O abraço que se abriu. E eu continuo à procura do tempo. 
Com ou sem casaco. Com ou sem as palavras que me faltam para voltar a puder sentir os braços, que estão leves desde que me chegou ao conhecimento o fardo.

De facto, histórias sobre casacos são as que eu não sei de todo escrever.

f...ck






27 de Setembro de 2011

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