11 setembro 2011

Faz parte


Abro a página. Posso torná-la o lugar de encontro, por excelência. Que riscar neste momento? O vento limpou a superfície. Por dentro, ainda jazem turbilhões – a saudade ressumada à mistura com o olhar fixo no infinito. Às vezes é estranho ficar em suspenso, mas não há forma de fugir.

A minha parte está feita. Resta uma quietude e perplexidade moída, como se tivesse corrido muitos quilómetros, assim descalça em cima de gravilha. Quem cai de joelhos, esfolha-os e depois arde. Não adianta tratar muito, por que vai sempre ficar uma marca. No entanto, um corpo sem marcas, assemelha-se a uma folha de alumínio – é fria. E não há frio que aguente um corpo que trabalha a toda a hora, não pára quieto, revira os lençóis da cama, atira-se contra as coisas e depois vêem-se pisaduras. É do sangue.

Não há outra maneira. Faz-se uns fumos e acalma-se o peito. Ou então, dança-se un petite peau, uma valsa violenta e num copo, que cai ao chão, retoma-se a perfeição do fio-de-prumo. Amanhã é dia de trabalho e todos os rodopios tombam na mesa do fim-de-semana sem cama, sem horas, sem responsabilidades em que se canta, de forma desafinada e se vê os desvairos dos outros. Deixo de me sentir sozinha na confusão.

É assim. Hoje é assim. Por que o suposto verão interminável espetou-se num muro e o jardim secou. Preparam-se invernos, até porque os dilúvios vieram ainda no estio informe e defeituoso. Restam memórias de sonhos afogados na banheira alva em que me afundo, já sem dores de costas, só por motivo de já só doer por dentro. A dor interna, real, forte, que já não é aguda. Faz parte.

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