08 setembro 2011

O Deserto


Sabes qual é o problema de já ter percorrido o deserto? É reconhecer a água fresca como a coisa mais preciosa que a vida te pode dar.

Esta noite, este dia, entre estrelas e o sol nublado dormi como não dormia há anos. Ouvi a tua música entre os sonos e senti o nosso cheiro a cada segundo. De medida sem jeito, acabei por perceber o quão difícil isto vai tornar-se – a tua ausência, a minha própria ausência.

Já te disse que vivo no mundo dos sentidos. Analiso-os, dou-lhes forma de palavras, com todas a racionalizações e elucidações lógicas e organizadas. Tornaste o meu sem sentido à medida que nos inspiro. Tornaste o meu mais que sem sentido, mas porém o mais certo que podia permitir-me viver. Se calhar, ao contrário de que é nosso apanágio, existem verdades (internas) que acontecem apenas. Sem ter de haver uma razão absoluta.

Estaremos fora de horas? Ou estaremos fora de nós? Ou será que apenas encontramos a afinação perfeita, assim, só porque as vicissitudes da vida, mais cedo ou mais tarde o iriam ditar?

Questões a mais, preocupações que brotam de um coração que quer o teu… Entraste assim. És assim. E enquanto ouço as tuas teclas, sinto os teus dedos no meu corpo, apaixonando-me pelo momento que fizéssemos. E a seguir a isto, como deves já estar a imaginar, os meus braços tornam-se leves e apetece-me que me agarres com força, com o teu calor.

Reafirmo o quanto me encantas, por tudo o que me apontas e que vejo reflectido em ti. Gostava de conseguir transportar nas minhas palavras, o quanto me elevas à plenitude de ser mulher, de ser luz, de ser fêmea, de ser tua.

E repito, para mim, à medida que te ouço, que te ecoo nas minhas paredes e dentro de mim, não saber se algum dia poderei dar-te o que escrevo. Na música sem nome é mais fácil. Cada um pode fazer o seu texto. No que escrevo dou-me translúcida, com a minha racionalidade inteira e com a minha alma despida.

Já atravessei mais do que um deserto. Se foi a 55 ou a 66, eu não sei. Só sei que tais jornadas, como sabes, fazem crescer, ver mais além. E eu vi-te.

Meu querido.


O Beijo

Ana

Porto, 10 de Julho de 2011

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