21 setembro 2011

Submersão involuntária


Os beijos afogaram-se. Não sei de ti. Na minha alma vive uma angústia. Só uma. Essa que se sentou e agora me ofusca os dias e as noites. 

Deve ter havido mais do que um dilúvio, por que um mora nos meus olhos – inchados e que ardem. Ainda ontem me relembraram que tudo o que arde cura. De facto o que incha desincha e passa. Mas tudo isso soa a erudição popular a mais e hoje eu não me sinto nada popular. Estou sofrida e a sofrer. Qual é a diferença? Pois a diferença é que estar sofrida engloba o que se levantou e foi. O sofrer aglomera a cadeira onde a amargura se sentou. 

Há expedições tocantes. Uns altercam por salvar o Mundo. Outros por conquistar o campeonato de futebol. Ainda há aqueles que se combatem por encontrar um sítio para jogar à malha, velho jogo que me lembra o meu avô. Eu debati-me por lutar por um postilhão. E mais irónico é que ganhei outro – ora aí vai ela em queda livre, do amor para um fundo mar, gelado, que enruga os dedos e faz cãibras nos outros dedos. Despedaçada. 

Os beijos afogaram-se e ainda os sinto aqui. Os olhares são como vidros. Tudo se confunde – ora é o maior anseio ter o teu olhar em mim, ora me trucida o peito. E digo isto como se ainda o tivesse. Ter de posse, ter de meu, ter para mim. Se me dizes, entre declarada dor tua, que me deste o teu coração, pois eu em dor afirmativa, e como um dar com a cabeça na parede, dei-te o meu. E é nisto que eu me sei – não sou a Barbie, não sou a Fada, sou apenas uma pessoa sovada pelo atropelo que é o amor. 

Relembro-me dos livros lidos na minha longa adolescência. Experimentava as frases, esperando um dia viver assim um amor daqueles, que conduziram o Esteves Cardoso e o Pedro Paixão escrever assim, de pedra e cal, sem medo das palavras. Não lhes importa, lia eu, se são palavras maltratadas e maculas. São as palavras de tantos impossíveis que se afogaram, como os nossos beijos escondidos. 

Submersão involuntária. Cadeia entre o ser e o retrato que fizeste de mim. Tento ouvir a voz, tão minha, que diz Porra! O problema não está em ti! Mas deves sentir que um sou a pedra que te acertou na cachimónia quando já estavas rasteiro. Só me resta imaginar, sofrer, penar, chorar, enraivecer-me com a vida e depois… voltar ao inicio. Processos de cura. Lutos. Como eu os conheço. Sem medo, portanto, é a conclusão do dia. Mais nenhuma se dirige a mim que estou cansada de lutar. Então, nadei todos os estilos e até uma mariposa que aterrada em mim, se demorou no meu dedo. Como sonhei nesse momento. Vieste-me a cabeça logo. E naqueles minutos acreditei em contos-de-fadas e em histórias de princesas outra vez. Ansiei de corpo e alma.

A verdade é que pegaste num foguetão e vieste ao meu encontro. Será que dá para andar para trás? Podia pôr no repeat até ao fim, até me cansar, até me enfastiar de ti. Mas não dá. Só dá para pôr no repeat a música, tão linda e perfeita. A que me fizeste, sem nome, sem letra, sem entrada e saída. Eu sei que me devia resignar a viver numa música contigo. Mas isso dói tanto, tanto, que é como se me arrancassem um pedaço.


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