13 setembro 2011

Toma lá, dá cá


Pode ser o Fado Vadio, corridinho, as mulheres de xaile pelas costas e os homens de unhas compridas para dedilhar notas estridentes e velozes da guitarra portuguesa. Pode ser arisco, no lusco-fusco, dos cigarros que ali ainda se fumam, devagar, pelo canto da boca. Pode vir a preta cantar o Fado vadio, corrido, estampado nas caras pálidas dos brancos, suspirantes e aflitos. 

Toma lá, dá cá. E quem disse que não pode, então, o Fado Vadio, inquieto, desconcertante, malicioso, inteligente e popularucho, conceber um alvoroço pueril, feliz e prazenteiro? Toma lá, dá cá e não digas que vais daqui. As luzes ficam quase apagadas e não há pachorra para não sentir a voz dessa preta, imensamente gorda, com voz de anjo pagão. Oh pecado que entoas nos meus ouvidos!

Pode ser, assim, o Fado Vadio, que ouço em cima de mim, numa sala indistinta, cheia de pessoas curvas e sentidas. É o Fado Vadio, do toma lá, dá cá e mais não se pode dizer. É nesta agitação que se diz o que o coração sente, o que a mente mistura e atrapalha. Abanar as guitarras portuguesas, uma escura, a outra dura. Observam-se os dedos, recordam-se os outros. 

É uma dança, uma guerra aberta, nas melodias singulares de uma terra que não fora a minha por Deus não me ter dito antes que o Fado Vadio não pode parar. Pois se pára, tudo cai e o toma lá, dá cá ausenta-se por novas veredas. A acalmia dos rios sempre me aborreceu. E pessoas vestidas de panos claros e cores de Verão saloio, que fazem Férias dos sonhos, aleijam-me as vistinhas.

No Fado Vadio diz-se não me chateies que eu agora vou-me embora e espera-se que se responda do outro lado se vais, vai pela sombra que o sol está quente. É este toma lá, dá cá, maroto, que fala por palavras grosseiras e cheias de danação. Mas o Fado Vadio, que é expulso, ofendido, lascivo e arrogante, permite adivinhar nas entrelinhas a genuinidade das paixões que se teimam não assumir por de dentro do músculo central, vermelho e aquecido. 

Toma lá, dá cá! É que aí eu exclamo a brincadeira, expelindo risos compassivos e certeiros. Mas com olhos grandes e brilhantes. Os braços ficam fortes, agarrados à cintura da menina armada em dura, que na condição que concebeu se sente em bloqueio, num emudecimento infernal, negando o Fado Vadio, que lhe faz falta para continuar a prosa.

Ana Luísa Monteiro

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