08 setembro 2011

TQM

Não me devia ter esquecido a caneta nem o bloco de folhas lisas. Podia até ter trazido o de linhas, mas esqueci. Resigno-me e agradeço as novas formas de estar. Posso guardar todas as palavras em mim, esperar e construir o caminho até puder extrair cada pensamento, colocá-lo em ordem e, assim, escrevê-lo. Continuo a acreditar que a escrita imortaliza ápices, vistas as contingências temporais. Tudo tem os dias contados. Os dias são ligeiros suspiros em que nos cimentamos pessoas.

E durante o dia vieram-me tantas ideias à cabeça, sempre com o mesmo fundo – tu. Sabias que nunca nos vimos à luz do sol? Parece existir sempre aquela tal luz amarela sobre nós. A nossa cor é assim – amarela, das luzes dos esverdeados lampiões da velha cidade do Porto, tão magnífica. Nunca tão rigorosas como nesta altura. Os relances destes olhos precipitados a reter tudo de uma vez, que raramente fixam um ponto, transportam-te para dentro de mim. Via anatómica que arrebata a massa cinzenta e escorre ao coração. Aos pulos, meu querido. Sei que às vezes também te falta o ar. Já mo disseste. Nem era preciso, eu sabia. Vê-se.

Às vezes, aparece-me um lado adolescente e fico sem ar do lado esquerdo. Mas se fosse uma questão de direito ou esquerdo, nem sequer tinha seguido para o lado Oriente da situação. Teria posto prego a fundo no salto alto, o mesmo do sobressalto, aquele que te surge quando proferes que sou a tua mulher. Essa que escreveria livros, em ambientes meio toscos, rodeada de gente intelectual que usa barba de vinte-e-tal dias. A que teria o teu sobrenome, reduzindo o seu próprio a uma existência em comunhão com aquilo que deveríamos ser. Também aquela que continuaria a escrever sobre ti, sobre nós, qual Musa e Fauno de mãos dadas. Mas as mãos têm de ter os dedos entrelaçados, se não nem parecemos nós. Cantigas ao meu ouvido, agora do meu lado esquerdo, aqueces-me por dentro, enquanto pousas a mão direita no meu ombro direito. Os lados têm muito que se lhe diga. Ligo-os às assimetrias, em que vivo e moro, procurando harmonizar as pontas, que têm sido agudas. Efeito de limagem que tu tens. Só eu sei.

Mas não é assim. Sou somente a fantástica miúda, de quem sentes saudades e te faz sorrir por dentro, silêncio. Sou aquela que sabes o nome e a história te assusta, por que no meio da minha força, indiscutível força, o olhar mais profundo é triste. Já reparaste em quantos pontos a nossa história se toca? No entanto, quantos de nós já não aprenderam a tocar piano? Recordo-me escreveres, de ti para mim, que te orgulhas de mim, lembro-me dizeres que comigo não há frases feitas, nem coisas banais, nem muito menos conversas de trazer por casa. Nomeias-me de algo fantástico, inesperado, bendita sorte que teimava em não aparecer e quando surge vem a más horas. Sabe bem e terrifica. É doce mas espeta espinhos no coração. Sim, os dois em lágrimas, perdidos num beijo que era o último. Dizes-me que não.

Não me queres perder e eu vejo os teus olhos dentro dos meus e sei que ficas aflito se ameaço ir-me embora. Rebentam bombas no meu peito e os braços ficam leves, tão sem força. As pernas, porém, caminham em frente, sem olhar para trás. Vou de sapatos vermelhos. Chorei desalmadamente. Por ti, por mim

Não vou. Eu fico. Como? Não sei. Porquê? É difícil, meu querido, ficar tão perto e ter de estar tão longe. A imaginação também me prega partidas. Depois.

Sim, devia ter trazido comigo o mesmo impulso de perder a razão, de me esquecer de fumar cigarros, de olhar para cima por ser aí que estão os teus olhos.
No vai e vem deste Verão de uma vida, acabei um livro, comecei outro. No meio lá apareces, ponho um pé no deserto e o outro num piano de alguém que não se liberta da sua mãe. Serei a mera espectadora de palavras afincadas numa folha. Mas sou também feita dos sonhos que perdeste beira-mar.

Sinto-me ridiculamente apaixonada por este sentir, enquanto a música surge no meio de duzentas e tal que trouxe. Não viria sem a música e tu já sabias isso. Fazes outra para mim, por favor? Esta chega e preenche-me, mas outra podia ser a de quem abraça a escritora famosa, todas as noites quentes de Verão interminável. A escritora reconhecida, que é tua camena de músicas que tudo sabem, e que escreve livros grossos, daqueles que se lêem em todo o lado, por que tu a seguras nos braços nas quentes noites de Verão interminável.

Na minha cabeça aparecem estes cenários. Não sou eu que os construo. Os cenários parecem já lá estar. Eu só os trago à primeira fila. Não vou ser idílica em demasia e afirmar o meant to be. Mas fico desconfiada! Só pela forma como imaginamos. Já não podem chegar situações do Matrix e do Senhor dos Anéis, por se terem tornado obsoletas, junto daquilo que fazemos para parar de pensar na tralha toda. Surges assim. Entramos de rompante, filmando uma realidade com paredes de ilusão, sentindo no peito que devia ser. Será que já nos tínhamos visto? Como é possível, meu querido?

Adolescência renovada, em duas caminhadas tão duras, tão tortas. Jamais te faria sofrer, pois a minha caneta só sabe desenhar letras gordas sobre ti, envolta numa paz tão brilhante que nos cega.  

Aqui somos!


15.08.2011
Ana Luísa Monteiro

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