23 outubro 2011

Agora


Não sei se os olhos estão bem fechados. Não sei o motivo de aperto no coração. Mas o que interessa agora são os olhos. Não percebo. Olhos pequenos, vermelhos, escorridos, brilhantes, inflamados e alérgicos. Nos sonhos tudo é mais fácil e falas sem parar. A saudade de te ouvir falar sem parar é algo que soa a estúpido. Mas é tão real que os músculos ficam retesados de tanto lutar para não ouvir a tua voz dentro dos meus ouvidos. Nem tampouco a música. Não sou capaz. Provoca-me um sentimento que não sei definir e fico perdida.

Os músculos estão tão duros que deixei de conseguir abraçar os outros. Cada vez que levanto o braço esquerdo, prende-me o pescoço e tenho forçosamente de me encolher. É uma dor aguda e quente, mas que rasga. Depois desce pelas minhas costas e aloja-se, ainda à esquerda, no fundo. Ainda estou morena. Ainda é o mesmo desenho. Ainda me sento da mesma maneira, no sofá.

Transfigura-se, assim, o que me vai por dentro. Preciso de me esticar. E tento. Constantemente. E quando o estiramento muscular é grande, quase roçando o resgate da violência… vem a dor aguda. Que ironia. Que tremenda ironia. Eu já sabia. Só não sabia que tudo seria violento.

Levanto-me e sento-me. Rolo na minha existência. Ouço as pessoas. Recolho-me a mim. Estou incapacitada de abraçar. É grave. Não ouço a música, que continua a surgir no meio de muitas. Que continua a ser. Mas não posso. E então, repuxa-me o trapézio e caio. Nos livros, na rua, na cama, nos abraços. E esses, esses últimos, agora não tem o meu nome. São os outros, só os outros os podem fazer. 

Agora.

era preciso virar a página
a que foi mal escrita
por força de gritos que
não eram nossos.

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