04 outubro 2011

No ON


Chega-se a casa, sapatos fora, mala no chão, gata ao colo, máquina de café no ON. Os registos ficam fora da porta, liga-se o computador, música no ON

Não se quer a musica alto de mais, não se quer ensurdecer o pensamento. Pensa-se em bifes de soja, legumes salteados, manga de faca e garfo. Planeia-se o banho, a roupa e afinal o verão está aí. Foram-se os casacos de outrora. Vestido curto e saltos altos. Sair de casa, deixar a Guiné em casa a ronronar ao som de Beirut por que se gosta de música Indie, embora se saia para ir ouvir outra coisa. Não pensar no Amor. Aliás, o objectivo é não pensar em nada.

Ela vai à procura de ausência de mediocridade. Não se sabe se algum dia encontrará. Começa a acreditar que não. Sente-se desajustada, apertada, pensa em descer do salto e adormecer no muro velho da baixa, ainda amarela, ainda quente. Ela gostava de não pensar no Amor, mas esse explode a cada esquina. Gente aos beijos, gente de mãos dadas, gente a discutir, mais vestidos curtos e saltos altos. O Amor está vivo e borbulha debaixo deste calor absurdo e fora de horas. Mas ela detesta coisas fora de horas.

Pontualmente, ela lembra-se que dos sonhos e promessas, que foram feitas debaixo de outra luz, esbranquiçada e sabe que derivou daí. Sabe-se forte, mais capaz por força da realidade que trás na pele. Tem tatuagens em demasia para uma pessoa só. No fundo, mas mesmo lá no fundo e por dentro, sem o defeito ela fica livre, mas estar partido às vezes é uma protecção da alma. Assim, premeia-se absolvição pelas asneiras cometidas e executadas nas vidas dos outros.

Encontra-se perfeitos estranhos que se sabem de onde e ri-se maliciosamente da pequenez do mundo. Olhares, sorrisos, ela está cansada e não liga a nada. Esses ápices de aliciação sabem-lhe a bílis, como uma azia de figadeira. Sim, ela sente tudo assim, visceral. Quando ela nasceu foram-lhe escritas cartas e eu sei o peso que isso tem nela – é imenso. Ela sente-se responsável e, logo, não pode pensar no Amor, por que o Amor está rápido. Como não deve ser. Dá conta que termina histórias a mais, com reticências gordas e ela detesta.

Depois dos martinis, cavaqueiras, cigarros, músicas, vai para casa, raramente sozinha. Eles vão sempre com ela. Eles e elas, não restem dúvidas. Subir ou não, a Guiné estará a ronronar à sua espera, no silêncio por que a bateria acabou. E ela sabe que tem de a recarregar. Porém (ela detesta poréns) o momento é de gatice, de olhar a brincadeira e render-se também. Só depois dorme sem saltos altos, sem vestidos curtos, para que se possa recarregar a bateria, desgastada dos afazeres da escrita, que encontra neles mesmos a inspiração para não deixar a prosa.

2 comentários:

  1. o peso do vazio, o peso da vida cheia de tarefas, tão cheia, tão vazia!

    não exijas tanto de ti, vive de devagar, só assim aprecias a vida, só assim a vida acontece.

    escrevi-te uma carta quando nasceste, e amo-te desde ai!

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  2. :) vazia nunca estarei, mas às vezes pesa. vou tentar ir mais devagar. vou tentar não exigir tanto de mim, vou tentar deixar que ela aconteça.

    ainda a tenho e também te amo, desde esse dia por sinal :D

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