11 novembro 2011

amar o impossível


Solicitação: escrever sobre amar o impossível.

Certeza em que o pedido se apoiou: o impossível é somente o possível com um im.

O que me provoca? Os im’s remetem à negação. E a negação é minha conhecida, dos meus estudos, das minhas vivências, quer seja do lado de cá ou do lado de lá. Os enredos de protecção são estupendos, mas isso não significa que coíbam e atraquem a imbecilidade humana. O ego. Esse caguinchas.

Amar o impossível pode ser uma certeza. Pode ser um arrasto. Pode tornar-se um buraco que alguém escava no centro da caixa torácica, mas só que é por dentro, ao fundo, vira-se à esquerda, estás a ver? É como acordar todos os dias, soerguer o corpo quente dos lençóis, e afinal ali à frente estava uma trave de pau-santo, escuríssimo, em que se dá uma paulada mesmo com o meio da testa. Oh hematoma!

Mas amar o impossível é possível. É a permanência do outro nas entranhas do buraco escavado com as próprias mãos que desenharam vocábulos, cheios de letrinhas insolentes. Se o Amor fosse o Trivial Pursuit, aquele jogo de cultura geral desprotegida, o amar o impossível seria mais ou menos como ter ganho os queijinhos todos, só que veio alguém e levou a rodela inteira. Aí tu pensas que sabias tudo, de uma ponta à outra e até foste o melhor. Porém, por lembrar o im, ignorando o possível, deixaste que algumas mãos escondessem de ti todas aquelas peças maravilhosas, coloridas, que te deixavam tão orgulhoso. Afinal, levaram-to. E só podes pensar ora bolas! interceptando a imagem pitoresca, o paladar feliz e o ar prazenteiro.

Há que agarrar essa bola. Pois faz parte do arsenal com que tu vais acabar de te demolir.  

Ana Luísa Monteiro

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