29 novembro 2011

de costas, para a frente


A propósito do aniversário do meu melhor amigo, tive de comprar um bolo. Geralmente, quando se adquire um bolo, numa confeitaria de pessoas amáveis, onde às vezes se almoça, devido aos atrasos que me fazem gozar, dão, junto com o mesmo as velas. Mas ontem decidi fazer o oposto. Comprei as velas. E depois o bolo. Queria que as velas dissessem o número de anos que ele fez. 

Dirigida à prateleira das velas e afins, as opções eram várias. Ainda olhei para as velas em forma de número. Achei-as muito infantis. Depois dei mais uma vista geral à bancada. Distrai-me com os balões e um sem número de coisas com que se podem enfeitar os bolinhos de aniversário. Passou-me pela cabeça trazer aqueles palitos que se acendem e fazem um pseudo-fogo-de-artificio em micro-mundo, o do bolo, fogo esse decididamente inocente. 

Acontece que me lembrei que estava no supermercado, por ter sentido um braço de alguém roçar nas minhas costas. Se há sitio onde não pertenço, é em supermercados. Farta de lá estar, só por ser assim, olhei para as típicas velas e procurei: quatro e zero. 40 Anos, data assinalável, com direito a números vermelhos estirados em branco. Vela típica. Simples. Sem margem para enganos. La fui eu para a caixa. Claro que a caixa que escolhi entupiu. A senhora caixeira decidiu fazer contar e tirar tickets mesmo antes de me atender. Já nem dá para comentar. Distrai-me novamente. 

Chicletes, drops coloridos de chocolate, gomas, rebuçados, velinhas da Paz. Arre, velinhas da Paz porquê? A Paz compra-se? Desconhecia que assim seja. Ou será a Paz um conceito negociável, agora em forma de velinhas? Tudo tem um valor. A Paz, pelos vistos, vale um euro e ainda levamos uma velinha, feia e parola, para casa. Muito bem.

De volta ao fabuloso mundo do supermercado, lá passaram as velas e o resto que comprei. Paguei e fui indo. Em busca do bolo. E que giríssimo bolo consegui aquelas horas. Deixei-o lá na promessa de o ir buscar ainda mais tarde. E fui. Orgulhosa com o bolo e com as velas. O meu melhor amigo e os seus 40 anos. Fantástico. Se há coisa que me anima é dar os Parabéns às pessoas. E carregar bolos perfeitinhos.

Amigos, risos, cigarros, sumos, comida. Estórias. Não estava frio nenhum lá em casa do meu melhor amigo. Estávamos confortáveis. E ele fazia 40 anos. Proficiência. E uma dose de adolescência. Cordões desapertados sempre. Hora do bolo. Lá vem ele, escadas abaixo. Lá vou eu apresar as velas do fundo da minha mala. Já na minha mão, perfeitamente embutidas nuns plásticos que tive de serrar com uma facada, após um ataque de barafunda mental muito pessoal e que tem sido hábito. Acometimentos de dislexia, dislalia, sei lá. Tudo junto. Consigo as velas. Tudo à espera das velas.

Não podia acreditar! As velas, por sinal, uma delas não tinha um quatro, mas sim um grandioso três. Três? Como três?  Acto falhado? As distracções não são por acaso, bem sei. Nada se verifica à toa naquilo que fazemos. Então o meu melhor amigo faz 30 pequenos anos? Ou sou eu que estou egoisticamente ansiosa de lá chegar? Dúvidas, muitas dúvidas. Parece-me estar a arremessar piadas sobre mim, encalhada entre o agora e o depois de alguma coisa, sem urgência. Sim, egoisticamente falando e sentindo, ao menos é sem olhar para trás, sem abrir cartas que acorrem de avião, especulando autos e discípulos. E se é egoísta é por dever precisar que assim seja. E se foi precisamente com o meu melhor amigo e os seus 40 anos é por sentir um conforto tão grande que me posso atirar de costas, para a frente, que ele não me vai deixar esmurrar coisa nenhuma.


Parabéns Kiks!

2 comentários:

  1. Consegui seguir-te, como se de um filme se tratasse, narrador à mistura e gestos animados de uma Alice no país das Tuas Maravilhas... Cai de costas, para a frente e estarei em 2 sítios ao mesmo tempo para te amparar! ;)

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  2. :)

    só espero que tudo seja sempre uma magnifica viagem! tu sabes...

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