16 novembro 2011

neverland


Será que está errado comer um chocolate de uma ponta a outra, sem hesitar depor, embrulhar e alojar no frigorífico? É verdade. Eu guardo os chocolates no frigorífico. Já me disseram que não devia. Mas se me sabe melhor assim, acabado de sair do frigorífico, vou continuar a infringir essa regra.

Gosto de chocolates acabados de sair do frigorifico.

Gosto de gomas umas atrás das outras.

Gosto de gelatina de tutti-frutti.

Começo a sentir que gosto de fazer listas em catadupa de coisas que gosto. A amnésia desvelada pode surgir. Acrescento, encolhida de cansaço, findo um pseudo-dia, cheio de horas, cheio de quadradinhos, que a amnésia está iminente. Ao senti-lo, assim, sobranceiro, devo escrever as coisas simples de que gosto. Preenchimentos de horas em que só se espera que o desígnio amador que defini para hoje, se dê por vencido, para que eu possa igualmente fazê-lo. À pressa, claro.

As listas vão definir a minha pessoal e intransponível Terra do Nunca. Lá recebo cartas fechadas, daquelas que têm um rebordo riscado de azul e vermelho. Vêm de avião. Acho eu. De certeza que vêm pelo ar. Não se me interessa o conteúdo. Interessa  simplesmente que essas cartas chegaram. Sãs e salvas. Não as abro. Sinto que lá dentro estão as minhas listas.

Senta-te no degrau. E demora-te. É mais rápido subir escadas, avançando degraus. Mas o topo das escadas pode esperar.

(sim, sou eu que o digo, muitas vezes, aos petizes)

O conteúdo fica vedado. Escolho eu. Na minha Terra do Nunca. Assim, faço-me crer passível de criar listas novas e, quem sabe até, recordar as que comecei por escrever quando ainda estava intimidada com o enrolado das coisas que adquiri para amortecer quedas.

O rebordo encanta por si só. Os carimbos imperceptíveis são magníficos, provando eles que as pessoas que se responsabilizaram pela carta foram cuidadosas – não se pode pôr tinta a mais, pois o papel pode furar. Mas vêem-se dedadas, grandes. Tem ar de quem são dedos de pessoa que tem dedos grossos. E as dedadas não são de sujidade vulgar. São de tinta, como já se estava a adivinhar. Cheira a papel antigo. É um papel robusto, que se fosse maior cobria-me com ele.

Ai. Na minha Terra do Nunca sou o Peter Pan e a Fada Sininho ao mesmo tempo. Acrescentem-se as listas que chegam por cartas por ler. Cartas que são vividas pelo toque, pelo cheiro, pelo brilho que fazem despontar nos olhos. Demoro-me indefinidamente, elegendo esse trejeito, pois ao abrir diz-se adeus ao viver assim pelo toque, pelo cheiro, pelo brilho que fazem despontar nos olhos.


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