31 dezembro 2012

Feliz Tempo Novo

O Tempo é um fio deslaçado, cheio de nós apertados, uns nos outros, caídos, como se existissem para escorrer por ele fora. O Tempo tem voltas e volumes. Tem listas, lados, versões, dietas. Tem tudo e não tem nada. É ambíguo, fugidio, colorido, imundo. É como ir a todo o lado, agarrar com ambas as mãos e deixar cair aos pés. Para trás!

Para trás não já nada.

O Tempo não é de ninguém. É impossível e intransigente. Engana sem dó-ré-mi e de piedoso apenas tem o tic-tac. Tem a agenda preenchida e tem pelo menos duas mulheres - uma meiga, outra seca. As maleitas são distribuídas pelas duas. Ambas lêem. Ambas choram. Ambas riem e o Tempo é igual. Sempre igual, tem uma agenda preenchida.

Afinal, era só isso.

Deixa para trás uma música. E não é a que se dança, ouve ou abraça. Despede-se escondido, sem um adeus, sem palavras, sem conteúdos. Por lhe doerem as mãos. E os pés. O Tempo toma a opção e não fala. Muda de cena e segue em frente. Para trás nada há. Só aquela harmonia. Errada e dissimulada.

Salvem-se os que ainda têm máquinas de calcular.





25 dezembro 2012

Ciclos rápidos x Cerejas de Natal

Na primavera fala-se das cerejas e do sol e assim. Só gostava era que as cerejas e o sol e assim levassem o espirito natalício nos seus sabores.

É que se esvai, rápido, numa impavidez arrepiante.

Ágapes todos os dias seriam possíveis, na árvore de Natal ou debaixo da cerejeira. Restam no fim do dia, protagonistas.

E no fim do ano de dois mil e doze continuam as ideias sobre os ideais do ano que acabou há 12 meses.

Boas ____!!!




10 dezembro 2012

desistências e explosões

desistiu do baton. queria sentir os lábios secos. 

desistiu do verniz e da lima da unhas. queria partir as pontas e sentir as mãos toscas. 

desistiu dos vasos. queria ser a única a respirar. já não tolerava a fotossíntese assistida. 

desistiu de olhar para o chão. queria perceber se aguentava de pé se tropeçasse. 

desistiu de uma mão cheia de coisas. precisava de fazer espaço de bagagem. decidiu-se por frases curtas. falar menos. pensar mais. ser eloquente mas só por dentro. para que o mundo não lhe tirasse mais nada. 

então, calou-se. e nesse momento o mundo eclodiu à frente dela. 




30 novembro 2012

coisas pequenas

não seria assim o começo. falava da primeira impressão e de pequenos grãos de areia, chão de madeira e envernizamentos riscados.

estava a dizer isso. a ordem não importa. só servia para concluir coisas pequenas e sombras que não passam de pontos caducos de aspectos que afinal não estão ali. talvez mais adiante. questões de perspectiva sobre vultos impalpáveis.

hoje não há palavras que me agradem. nem tampouco reverberações emocionais.

só pequenos riscos, de pequenos grãos de areia, num chão de madeira envernizada.

mas, como diz o filme: "sand is overrated. it's just tiny little rocks."


22 novembro 2012

de-S.A.-bafos

sei a minha língua. não preciso de mais nenhuma que me decore a cabeça com QI's produzidos à martelada. de igual forma, não ando à procura de nenhuns poços de conhecimento, onde possa bebericar papiros borbulhantes de uma paz dita e que não se vive. a vida deixa de estar em curso quando se nega que a ausência de luz é muito mais do que uma escuridão peremptória e realista. o que quero dizer, nesta minha maneira rocambolesca de escrever, é que o vazio não se coaduna de ausências. e quando negado, ajusta auto-mentiras proclamadas como sentenças. o vazio, experiência do buraco negro (como autores da psicanálise o referem), compõe-se de diferentes prateleiras, gavetas e guiões, que, sem se contar, já não servem de nada. fica-se com nada, enquanto tudo permanece ali alinhado e exposto. há, indubitavelmente, uma transmutação impossível de adiar. as pessoas aparecem cobertas de um espesso nevoeiro, toscas, fuscas e atrasadas. no tempo, claro. esse conceito operante improrrogável, com qual se brinca, tacteando a possibilidade de haver dois tempos num só. o tempo não é a música. é antes uma peça de teatro.


19 novembro 2012

quase com título

Se calhar

Foi por um triz! Ufa, foi por uma nesga que

Tudo se ficou por ser nada
Nada ficou por ser dito
O dito não importou longas metragens
As longas metragens não foram queimadas num incêndio
Um incêndio não deflagrou na casa
A casa ficou na mesma do avesso
O avesso não passou de uma ilusão
A ilusão não se tornou num estado ilícito.

Tudo ficou quieto.

Calma!

Foi apenas uma ideia. E essa foi por um triz.


17 novembro 2012

agora já não podes

sentir fome. não querer comer. ter a certeza de que se está com fome. escolher não comer.

deixar por preencher.

já se sabe o sabor de tudo. não se aporta desejos cor-de-rosa que sejam passíveis de satisfação, já se provou tudo. paletes de cores e texturas.

escolhe-se não repetir nada. afinal de contas, comer é seguido de digestão. e tudo se esvai em merda. tudo tem o mesmo fim.

desaparecer. não te tornar a ver. não te cravar um cigarro. não sentir a tua mão.

tenho saudades tuas. choro tantas vezes por ter saudades tuas.

estivemos lá. já nada importava. só a nossa sede. a mesma que se nega numa estupidez qualquer que proferimos para nos pudermos rir.

não ouço o teu riso. no entanto, é meu.

"pareces ela."

e és minha. mais do que eu fui tua porque nunca te fiz um chá na minha cafeteira. só te cravei cigarros, as mãos e suguei-te palavras.

comemos camarões. sandes com maionese. até isso te pedi.

tenho saudades tuas.

do teu cabelo. da peruca. das tuas unhas e do teu fio. todas temos um fio. não ponho o meu há tanto tempo.

precisava muito de falar contigo. porra, não podes. já não te roubo o tempo. ele é que te roubou de mim.

não te guardo. só por um motivo.

"parecias ela, agora... a rir-te!"

09 novembro 2012

desculpem mas eu gosto de honrar as minhas palavras



Ouço.
Leio por aí.
As palavras não são importantes.

Chavões, sustentáculos, postes da intrujice,essa que anda aí deliciada pelas ruas, sempre de vestidinho colorido. A vaca até cruza as pernas e fuma de boquilha. Seduz homens e mulheres. Conquista cães sem dono, macacos amestrados, leões de coleira e trela. Alicia cabras montanhesas, gatas tresmalhadas, galinhas emproadas. Não quer saber. Não interessa. Não tem escrúpulos. Tenho de dizer isto: é duma laia! (favor ler com entoação de como que vai dizer: é duma laia que nem as putas).

As palavras não são importantes por que as pessoas precisam de engodos, de castros e de frestas onde se meterem. Questiono-me sempre sobre esta coisa toda que é o embuste, o engano, a qualidade falseada das palavras. Questiono-me e oponho-me. Revolto-me, atiro-me ao chão, levanto-me de mãos esfoladas, cheia de negras nas pernas. Sinto-me alienada quando percebo que as palavras não são importantes. Sinto-me fora de mim, fora da pele, fora da casca. Sinto-me ferver. E piora, com o tempo piora. O tempo que não ajuda a sarar, só soma. 

É que eu sou palavras soltas no Tempo.

… e por tal, às vezes sinto-me um asno!

08 novembro 2012

roldanas



Roldanas e encaixes
Giros em círculos perfeitos
Sem desgaste corpóreo
Que se afigure possível
Só nos olhos.

Espelhos da alma
Que fitam ares aéreos
Etéreos.

Mãos, nas mãos
A segurar dedais
Empecilhos insubstituíveis
Impossíveis de repetir
O que já foi, lá está.

Nada muda,
Altera, cambia
E são sinónimos.

A dar de mão beijada
Entregas em bandejas prateadas
De um oiro branco
Cheio de dedadas,
Marcas por limpar.

Pois há aquilo
Que não se limpa,
Não aclara.

Retorna de repente
Com demoradas expectativas
Na salva,
Gratuito e brindado
Sem dó nem piedade.

Cai nas rodas
Das roldanas repisadas,
A espalhar fumo.


Ana

02 novembro 2012

A ser velha

Eu hei-de ser velha e poder dizer tudo aquilo que se passou. Eu hei-de ser velha como um tronco alto e enrugado, que fica de pé, sozinho, parecendo inerte, mas que transporta a densidade de milhares anos. Hei-de ser velha e contar histórias e fazer doces de Natal para a descendência, que me acariciará as rugas das mãos, da face e o cabelo branco, sentido as palavras e os conselhos. E assim, eu hei-de ser velha, sem medo, com o frio entalado nos ossos e as costas dobradas. Talvez use um puxo no cabelo. Talvez o corte pequeno. Porque no fim não se deve sentir cansaço. Só uma paz obliteradora que faça sentir que valeu a pena. Aí reside a imortalidade pessoal e intransmissível de não ter estado jamais ausente.

A Laurinda Pinto.


30 setembro 2012

dentro da super-supernova


Era uma garrafa onde cabia muito mais que estados liquefeitos, de cores mediamente diáfanas, afiguradas e espessadas em sabores decorosamente dulcificados, a parecer bem. Era mais do que a garrafa e os seus portes fluidos, lúbricos e licorosos.


Não seria apenas pelo gargalo que lhe tocam por dentro. Muito antes alguém terá tido a dedicação suficiente e de precisão cirúrgica, que levou a tamanha perfeição de estado de coisa doce, invariável e exemplar.

Mas pois que restava aquela imagem, incólume, de rectidão, da mais suave perfeição.

Porém, ali fechada, qual coisa de diamante já talhado, não resta senão permanecer na quietude escondida da deflagração do vórtice caótico, naquela atalaia de inquietude atípica e excessiva, que dá luz.

Sem conluios que se vejam, impedindo um termo certo. Só infinitos desmaios e golpes de raiz. Cair de pé. 

17 setembro 2012

reflexo

a memória compõe-se de estilhaços de vidro que já não se vêem. sentem-se.

é difícil, senão até impossível, ser-se dono de um vidro límpido, mondado e que possa reflectir uma imagem contornada como um sólido. há sempre algum risco no vidro. há sempre qualquer coisa a atrapalhar a perfeição.

na mente, tudo isto se torna caleidoscópico. não é, então, magnífica a cura, temporal, lenta e indecifrável, daqueles cortes nas mãos, feitos nos riscos do vidro estilhaçado que se permitiu partir?

só vejo infinitos caminhos saírem dai. e isso, apesar de tudo, agrada-me.



13 setembro 2012

azáfama silenciada


Já era de dia. Havia ali uma azáfama fora do que era norma.

A norma. Coisa atulhada de régios pedaços limitativos. Não necessariamente odienta. No entanto, faz existir a necessidade de um desengano.

Tinha chegado, vestida de cor sólida. Preto. Não era hábito chegar a lado nenhum sem pentear o cabelo. Estava, porém, cansada e não se lhe acudiu à memória que devesse pentear o cabelo. Era como se retornasse não a casa – retornava à cama.
           
A cama. Lugar onde as pessoas dormem. Lugar do sonho e do pesadelo. Locus de controlo e descontrolo. Palco do amor, sexo e tragédia. Retiro vago, por vezes, até mesmo quando partilhada.

Lá a esperavam as pessoas que haviam sido, outrora, as pessoas do costume. Só que, naquele dia de manhã azafamada, as pessoas que dantes eram as pessoas do costume, estavam velhas, enrugadas, gastas. Estavam também elas de preto.  

Estar de preto, geralmente, está associado a um Luto. Esse, por sua vez, começa depois da morte. Associado à perda, onde seguidamente se processa um desligar, por sistema, vagaroso e doloroso.

As pessoas do costume estavam afónicas. Mas havia ali uma azáfama, um corre-corre lacerado. Eram as pessoas. De preto e afónicas. Em luto e sem voz que pudesse extravasar os seus gritos. Os risos.

A voz que conduz a paixão. Frémito no corpo. Tremeliques, impossibilitados por falta de ar, da perda.

Embalava-se nas palavras de humanistas desaproveitados e afastados. Ouvia uma entoada. Assim,

            O que lhe fizeram ao País. Ele tem tanta pena. O País.

E de repente, era de noite. E depois, já era de dia. Outro dia. E ainda havia muita azáfama enroupada a preto.

05 setembro 2012

desculpem. vou-me retirar para montanhas de palavras

henry miller. um que escrevia.

eu e ele. dois que escrevem. pouco e tanto tempo.

se o tempo muda? não sei. sei que eu e ele nos encontramos no tempo um do outro. seja um findo mês e pico. seja um curto suspiro de 44 dias.

vou-me à leitura. fico próxima.




Ana


30 agosto 2012

livros, onde estão?


Faltam-me livros. Perdi-lhes o rasto, sem nunca considerar essa hipótese. Sim, eu emprestei esses livros perdidos. Não os perdi simplesmente, como posso perder uma data de outras coisas. Já aconteceu perder roupa, por que tinha calor e não olhei para o banco, deixando lá um casaco, que naquele segundo, me era inteiramente dispensável. Já aconteceu perder um cinzeiro de praia, deixando-o para trás sujo, somente por abstracção. Já me aconteceu perder um anel, que havia guardado de maneira tão precisa e distinta que nunca mais o vi.

Já me aconteceu perder pessoas.
Umas que larguei, imitando a passagem do cinzeiro de praia ou até mesmo da peça de roupa, acrescentando a intenção de largar, deixar ir, não quer ver.
Umas outras, não desejei largar. Cessaram e, então, perdi.

Estas são vicissitudes da vida, que dão tratados, do bem e do mal, da dor e do prazer em conhecer-te.

Os livros, porém, são coisas que agarro mais do que quase tudo o que nos parece fazer falta: anéis valiosos de um país remoto, objectos utilitários que parecem estar lá sempre, peças da indumentária usadas numa sociedade consumista e emproada. Lembro-me de perder papéis. Sei que já perdi a cabeça, momento raro que escasseia após uso hiperbólico da mesma e por colecção de sigilos tidos nas conversas associativas e livres, onde a franqueza reina e até parece rir-se de mim.

Pois bem, posso assumir que na perda há um lado extraordinário de descoberta de não gostar de perder, onde se esconjura aquilo que não se quer mais. Rasgos de raiva caiados a frustração, sobrevinda do contratar que alguma coisa nos faz falta. E isso faz-nos querer não tornar a perder o que nos faz falta. Surge-me a obrigatoriedade do movimento de aproximação, imperativo e denso como um pedra de granito escuro, a fugir para o preto. De igual forma, fazendo peso, fica na memória e ficando aí até liberta das atitudes mais desatentas.

Os meus livros são todos importantes, até aqueles de que não gostei tanto, que não consegui terminar de ler, que se rasgaram ou estragaram por algum motivo. Perdê-los fez-me perceber que não tolero perder mais nenhum.

Talvez, peça fiança antes de mais. Ideia tola e despropositada. Talvez.

Ou então, o empréstimo só decorrerá quando confiar em alguém os meus tesouros, como quando desabafo um segredo, derramo umas lágrimas de cavada tristeza, rio cúmplice sem motivo. E isso sim não é passível de escolha. Ou é ou não é.


Ana Luísa

há mar e mar...

a utilidade da percepção abrangente permite a escuta, pois dá para captar a necessidade do outro. parece válido que se ouça com os ouvidos e que segure com os olhos.

atenta-se uma global dedicatória à pele e ao cheiro. toca-se com todos os sentidos, numa entrega voluntária. oferenda-se o próprio ademane.

porém, nem tais gesticulares desenhos parecem chegar. há aí pessoas a afogar-se.


19 agosto 2012

"propaganda war"


Havia um cofre de pedra-pomes. Estava ali pousado à porta. Fazendo jus à sua grandiosa curiosidade, a mesma dos gatos, abriu aquilo. A curiosidade dos gatos é abismal, mas o perigo decorre da abstracção divertida que incorre dessa curiosidade – os gatos precisam de ver as coisas por entre as suas unhas feitas garras, com o olhar mais estrídulo. Imprevidentes movimentos propositados, sem ser falseados, o diabo a soprar ao ouvido, iniciados com a mão esquerda, que segurava aquilo, agarrando-a com as garras de fora, abre aquilo, com a direita. Vê e sabe. Entende tudo e sabe o que é. Tudo se afigura quebradiço, repetitivo, circular - é o circo dos horrores, teatro grego, ensaios boémicos,  festa de aristocratas. A circularidade é um tampo que as pessoas põem debaixo dos pés. Repete-se. Sabe-se que aquilo tudo repetido é um perigo familiar. Descrê e medita, delimita e define, conclui tratados. Vive-se assim e só assim se livre, seja lá isso o que for. Sente-se que isso de livre é quando tudo é delicado por dentro da caixa torácica e no fundo da barriga. Lá no fundo. A autonomia é falácia e abrir os braços para trás enlouquece. Talvez para o lado equilibre para a frente. 

A culpa é do trajecto decretado, mapas e aquilo que se quer. Só tem a ver com aquilo que se quer. Desejos com forma de cubo de gelo. O diabo só assiste. E deus assina por baixo.


18 agosto 2012

estrela cadente


Perde tempo
Pretérito já tido

Eu aviso
De repente e devagar

É que se anda a ver quem ganha
Lição de voo sem numeração

Mas são cinco as pontas soltas
Multiplicadas pelo infinito

Não é por nada que digo
Só é meu se não disser

Aquilo ao centro do meu umbigo
É mais violento do que o excessivo

Sem peso não se gravita
Já provei pedras

Não gostei.

escoamentos, gente forte e sem-saídas


Arvorar o corpo. Depor as pernas no chão, sentir o enrijecido caminho e faze-lo mecanicamente. Ir direita ao congelador e sacar um gelado de cone, que tem um sabor que já não faz lembrar morangos. Arrancar de qualquer maneira o papel enleante, lamber aquilo tudo e a cabeça está em ponto morto. Olhar pela janela. Percebo o sol e o ar razoavelmente quente para estar com pouca roupa. Atingir que há muito que tornear as pernas em direcção aquele sitio onde posso, após engolir o creme gelado, sabor a quase morango (disfarces) e sentir que todas as linhas têm parêntesis. Esses são tomados de assalto. Uso-os como deslizes latentes de ora bem, esforcem-se um bocadinho, por que eu digo mais do que parece. Escrevo pela viagem. Só vem quem quer. Ando a ler-me, nas linhas das minhas mãos.

Penso nela. A ausência dela, já marcada, tem destas obras magníficas. Sem ela percepciono bastante melhor (mas só agora), o que vamos falando, em interlocuções cronometradas que, após aquilo tudo, trago, com exímio jeitinho, seguro nas mãos. Talvez falte somente soltar.

Mas há aqueles que gostam das mãos para exibir anéis como troféus.        
Já fiz isto, aquilo e agora sou assim.
Leio revistas de economia e por tal motivo sou um máximo.
Sou muito melhor por que estudei cinema e faço curtas-metragens que ninguém percebe.
(Uma vez, sentei-me numa galeria em Cedofeita a olhar para uma curta. Sai de lá a perceber que maior parte das pessoas gosta de contornos. Apenas. Fiquei entediada.)
Olha lá esta minha história. Era uma bem fixe e eu estou aqui a falar nisso mas já nada importa. Sou uma pessoa forte.

Reparo (e isso é uma estranha mania, que vem de criança, coisa inata, que me ocupou horas de brincadeira infindáveis) que a sonolência está estampada nos rostos. Muitas vezes, sinto que é impossível compreender uma palavra do que as pessoas dizem. Parece tudo amorfo nos lábios.

Rapidamente, vagueio à fila de espera. Nas minhas costas, um casal sul-americano, articulando um espanhol qualquer, palreiam assertivos. Foi inevitável ouvir o que diziam e, tão simples quanto é o redondo do Mundo, falavam dos outros. A história pouco ou nada interessa, não a vou contar.

Retiro-me para as dúvidas das pessoas e o sem-saída. Há o sem muita coisa. Ultrapassa o cem-de-centena. Esse primeiro lugar elencado, surge-me como aterrorizador. No entanto, é uma possibilidade, sendo que essa é pior do que o nada. O nada é um estado vazio azedo. É vazio, descontrolado, sem limites. Mas até esse tem saída, seja por força motriz impulsionadora e criativa. Seja pelo suicídio. Nunca nenhum paciente meu se matou. Embora assim ocorra até ao minuto presente, as atitudes parassuicidárias brotam em vários. Mais mulheres do que homens. Os masculinos seres da força falam menos daquilo que fariam. Parecem cingir-se mais a dados concretos da realidade – a deles, logicamente. Atrevo-me a avaliar que sentem mais concretamente e, por tal, mais duro. Decorre daí a fragilidade mais compressora, reverberando o juízo da realidade.

Passo atrás, os comportamentos parassuicidários, histriónicos e brutalmente neuróticos, surgem no livre curso de uma fuga à verdadeira dor. É uma auto-mutilação, cujo cerne e meta são deslocados do alívio imediato da dor mental. Aí, o núcleo histriónico, delapidador de prepotência (mas revelador de um profundo narcisismo), aguenta a dor. Introjecta-a, como se a engolisse. Creio até que se alimenta dessa dor mental. Esse movimento de se auto-infligir de maleita física surge como veículo à animosidade à sensação de vazio, que remete à necessidade de preenchimento por esvaziamento – do ego, vazio do próprio, que se preenche do outro, que se torna solicito, pronto e angustiado. Nessa partilha, não há vazio, aos olhos do histrionismo disseminado naquele registo psíquico.

A propósito, questionam-me inúmeras vezes sobre a questão dos limites entre mim, enquanto psicóloga clínica (como se só nós nos tivéssemos de delimitar) e o outro, o paciente, o que sofre (como se só os pacientes dos psicólogos sofressem). Pois bem, cada paciente se mostra distinto. Uns, ávidos de escuta, falam incessantemente. Aqui, muitas vezes, surge o efeito de devo denominar de “escoamento” – a ideia de falar com um psicólogo foi bastante para que, aquele em sofrimento, evacuando o material perturbador, se sentisse melhor. Mas, por detrás desse escoamento vago, considero eu, está a estaca de frequentar consultas com um psicólogo que, a meu ver, é o assumir que algo não vai bem. E esse, sem margem para grandes dúvidas, é um movimento demasiadamente doloroso. A todos. Assim, a impressão (não passando disso) da fragilidade pessoal é tão avassaladora que se mascara o acto clínico, numa simples conversa com alguém que podia atestar com vinheta, afiançando sanidade mental. Essa última regista-se, então, como personalidade forte, pessoa forte e capaz de enfrentar os problemas diários (ou sonega-los ao mais pequeno grão), que pode eliminar facilmente os efeitos adversos do desespero e estados submergidos de angústia. Num ápice, conclui-se o de há mais que muito tempo. Existe e é assim, impossível o escoamento ser um verdadeiro rasgo para atestar a “personalidade forte”.

O sol está quente. Só me questiono o que aconteceu às pessoas que tanto precisam de se evadir constantemente daquilo que há para sentir. O que será que se passa que ser forte é diademar as suas cabeças com eu tenho uma personalidade forte, reiterando gritos necessários. É que isso (parece-me) leva a coisas sem-saída, digo eu que tinha pousado a escrita na mesa pequena.

Talvez a dor de cabeça, que voltou (nada que me surpreenda), e o gelado feito cone de sabores de morangos disfarçados em cremes dulcíssimos, sejam o bastante para riscar e riscar linhas que vão continuar a deixar-me despenteada de tanto ter de segurar o crânio. São, assim, mais do que é costume, concluindo uma imensidão de bafejamentos líricos, pois é isso que sou, agarrada ao que me pertence e de mim sai. Não amassei pergaminhos. Com custo, pus o pé direito em cima deles e agora, talvez, os olhos (estragados) vejam para além dos anéis que trago nos dedos.

Ana

12 agosto 2012

no hiding proud

ela dava. talvez de forma diferente, incomum. mas ela dava.

passava em muitos sítios. ia por muitos caminhos, fazer coisas. ser ela. percorria o tempo, preenchendo diálogos que lhe servem de muito. 

enchia o peito de ar. ela tinha uma sensação de impotência, inexpugnável dos seus braços - ainda longos e magros.

mas ela ia. e imaginava, inocente, que ele estava ali com ela. pintava o quadro assim. ele sempre ali com ela em cada 
viela.
praça.
música.
mergulho.
suspiro.
enrolar o cabelo atrás da orelha.
copo de água fresca.
...

em tudo. apesar de tudo.

ela gostava dele. e gostava assim de
peito aberto,
peito apertado,
peito relaxado,
peito sorridente,
peito com gargalhadas,
peito angustiado,
peito latejante,
...

ela fazia coisas mal feitas. mas tinha pena que todas as que fez bem, mesmo sem saber, estivessem no baú dele, onde, imaginava ela, ele se tinha fechado também. 

ela esperava, inquieta e contundida.
mas ela esperava que
tudo ficasse bem
se resolvesse 
fosse ouvida nos seus discursos fervorosos
...
por ele.



Lu

10 agosto 2012

o agosto é de todos

- já há uvas no mês de Agosto? - pergunta a dos óculos à da blusa às bolas.
- não sei. mas lembraste daquele 25 de Agosto que o tio Zeca fez aquelas sardinhas? - retorque, sibilante, pausada, como quem tira uvas de um cacho.
- lembro. foi nesse ano que o tio Zeca tirou aquela fotografia ao Fernando. - e lembra mesmo.

(...)

continuam e falam do Zé Manel e da Lurdes, de coisas parvas. Comem umas torradas apesar do calor abafado. Chamam-se à atenção e contam mil uma historias. Conjecturam sobre a vida e ralham as asneiras dos outros. Qual tribunal! Afinal a Maria já havia sentenciado a Marília e o Adolfo, que levaram o dinheiro de não sei quem.

testemunhas à parte, lá se foi o Agosto e as sardinhas, concluindo ambas que todos os acima falados são umas bestas e que deus devia intervir rapidamente, protegendo-as.

quem fica de atalaia já só pede cachos de uvas, daquelas bem gordas, porque o Agosto é curto e o verão não chega para dourar a pele o ano todo.

as conversas dos outros ficam na prateleira, bem como as Amélias suspirantes e os Eduardos que deitam fogo à própria casa.

é tempo de deitar os ouvidos na toalha de praia e a caneta atrás da orelha, já que os dedos são para fazer castelos na areia.

09 agosto 2012

conceptualização de aspectos (in)comuns


Autoridade, coragem e agressão (conceitos). Temáticas indissociáveis, sem margem de dúvida (merdas aos pedaços na cabeça das pessoas). Relembro Coimbra de Matos (psicanalista) sobre a ansiedade (sinónimos a serem devidamente aferidos no dicionário), dirigindo-a no sentido do Otto Rank (psicanalista), do próprio Freud (pai da psicanálise e primeiro médico a sintetizar a cocaína), do Alfred Adler (psicanalista) e, logicamente do dicionário (já anteriormente referenciado). 


Falar da neurose (maluquices que maior parte das pessoas tem) só por falar (bla bla bla), não adianta de nada na sua resolução (o fim). Há um impedimento (muros) primário, que deriva da incerteza da partilha (eu e tu, que somos dois, mas vamos de mão dada). Assim, num movimento intrínseco, sem grande magia (aquilo que fazem as fadas, i.e.), a ansiedade remete para dentro, o auto-mergulho (fundo, afundo) que diverte (LOL) e distrai da possibilidade da perda do objecto (que não se prende com materialismos, muito menos com sapatos de salto alto), dentro da fantasia (mesmo assim). 

O que se faz por evitamento (silêncio) da dor pode cimentar a mesma pelo desejo (quero-te) intenso e, de forma poetizada (“Amor é fogo que arde sem se ver, é ferida que dói, e não se sente; é um contentamento descontente, é dor que desatina sem doer”), ardente que é definição (prateleiras de coisas arrumadas) dessa mesma angústia.



A vida (a morte) psíquica não se coaduna sem (homofonia de cem) esta ansiedade, a Angst, que percorre (corre-corre) os meandros da vida interna daquele a quem vou chamar (escreva o seu nome aqui ______________) de próprio (ego), transcendendo sentidos (cinco e mais alguns) e percorrendo os caminhos (santiago, fátima, finisterra, com ou sem deus) da culpa (âncora). Por culpa do próprio, ansioso, atira-se o medo (do bicho papão) para cima (alto!) da mesa. Todos o podem observar (ensaio sobre a cegueira), escapando do escopo (sss’s) íntimo dos psis (suposta raça de gente louca). Mas anula-se (1 - 1 = 0), inutilizando ares (de quem repara), a ânsia inflamada (ardente) de quem escreve as odes, cantos, pinta telas.

Antes (primeiro) de ir já tinha ido lá alguém (um). Os artistas (os que sentem) na sua sensibilidade (lindo) imensa que tanto se angustiam por ninguém (todos) os perceberem, aplainados na Arte (infinito). Há uma mescla (mistura às e das cores) no Mundo, que se disfarça (carnaval) de coisas ditas a correrem de olhos fechados (quedas).

Epifania (eureka). 


Lu M.

07 agosto 2012

a fotógrafa

a fotógrafa tem uma toalha azul, um tom daqueles escuros. a fotógrafa sabe o que está fazer. ela passeia-se como quem dança fotografando a máquina fotográfica. ela estuda a luz e fotografa-se a ela própria.

a fotógrafa faz barulho com os pés. é activa e teimosa. prende o cabelo e anda depressa. ela está de sapatilhas cinzentas e de mala preta. tem tudo o que precisa. tem uma missão.

a fotógrafa é loira. ela já não é menina mas dança entre a sombra e o chão onde bate o sol. ela não está distraída. não veio aqui distrair-se. veio tirar fotografias. e hoje estou boa de fotografar, para agarrar.

e assim, eu agradeço-lhe, fotografando-a a ela.

05 agosto 2012

A inexistência do óbito


Não me morra o bailado
Expulso do físico
Zangado com a tona trilhada
Convidativo, que excita o timbre
Alegre arrepiado
Volúvel ao toque
Consagrando arrimo engenhoso.

Por ser panorama mais plácido,
Evocando tanques parduscos,
Não me tomem por defunta
Na corredura interiormente aos braços,
Os que são enleios,
E ausentam-se do sangue a acontecer
Como quem quer engolir o cosmos.

Interrompendo a meio
As laranjas tardias que lanchei
Dulcificadas com sacarose
Traduzem, pois
Formas de cavaletes sem quadros
E tintas que jorram constantes.

O capitular do dia lateja
Recostando o silêncio
E cancelas o candeeiro
Só já se sente a oficina fotográfica
Afincada nas chapas
Sem auxílio nenhum.

Prender não é, todavia, morrer.

Ana Luísa