08 fevereiro 2012

cansaço


Cansaço

"O que há em mim é sobretudo cansaço —
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.

A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas —
Essas e o que falta nelas eternamente —;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.

Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada —
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser...

E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto...
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
Íssimno, íssimo, íssimo,
Cansaço..."

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa


Tudo o que se sente no corpo já sem se saber que feitio denotar n’alma. Antes de todos os eruditos da ciência do cérebro, lá passou um poeta, é verdade. A ideia de Freud, esta como outras, balanceadas no punho, nos olhos de quem lê. Mas não interessa por que via. Não interessa onde se vai. Tenho medo e sem ter vergonha, eu tenho medo. Torna-se circularmente válido. Daí que precise do poeta e do neurologista. Dos dois – que me suportam a existência.

Escrever cansa-me. Pensar cansa-me. Repousar cansa-me e magoa-me os ossos. Tudo me cansa e eu não sei porquê.




Ana

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