12 fevereiro 2012

quinze páginas


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Dizem que quem conta um conto acrescenta um ponto. Mas, e então, quem conta um conto pela primeira vez? Sem supedâneo concreto que o sustente ou guie. Preciso de 10-15 páginas, com espaços convenientes. Lá vem o resto fazer de conta que não haverá tempo. Ou será apenas medo? A vida que se altera a cada momento, sem darmos conta, nos ponteiros de um relógio de parede, que não se põe à vista, tem destes laivos de cambalear entre o caminho definido e aquilo que é, simplesmente.

Saramago, que escrevia genialmente, edificava duas páginas por dia, por sistema. Parece ser pouco. Errado pensar que é pouco. É tanto, mas tanto. Entre aquilo que queremos dizer e o que dizemos, esvaindo-se numa folha a quantidade de palavras, somadas, umas às outras, martelando sentidos, aptidões súbitas, bolas de ideias reflectidas num espaço qualquer, as tais duas páginas asseveram-se um livro inteiro.

Levar a cabo algo que se quer, mas sem cinto de segurança, dá a sensação que o estômago se apinha de indecisões. Validade não questionável. Até por que observo que mesmo as árvores e o vento, as correntes do rio (logo pela manhã), as ondas do mar invernoso e encoberto de melancolia, hesitam nos seus bailados. E a natureza é isto. Talvez esse aperto no estômago sirva para lembrar a humanidade que nos acode aos olhos. A candura e o medo.

Ana Lu

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