18 março 2012

ainda


Não sei a quem se outorga o embuste do “querer é poder”. Até pode acontecer, de quando a quando, nomeadamente quando se sepulta meneios da destreza do gesto. Ou da própria escolha. Utilizar do livre arbítrio é mais relativo do que a relatividade ela mesma. Pelo menos, assim o tenho experienciado.

Pessoa, tornou-se uma entidade literária, que carrega a responsabilidade de um País. Tenho dúvidas que o leiam assim tanto. Pois mais que entidade literária, Pessoa era homem que chegasse para falar daquilo que as outras pessoas teimam em não querer. Como ele dizia e imortalizou “não querer é poder”. Pondo neste lado, sento-me num ramo de uma árvore, tentando a levitação, e concluo que me cabe mais esta forma do que a rudimentar elegida. Quem não quiser, permanece naquilo que escolhe não querer. Por tal, detém-se livre debaixo do fogo cruzado do engano mais aprazível que se pode conceber – o embuste oportuno.

É cómodo, então. É uma divisão da casa. A minha porém, a subjectiva casa, construída em cima da linha de mar, ainda não tem janelas, nem portas. Surge um cenário que me atira para o querer sair e não poder. Edifica paredes com super-cola 3, que me prendem. Pois bem que aparece deitado na minha cama, ainda quente que “querer não é poder”. Querer, desejar, ambicionar, apetecer, sinónimos que se repetem por indigência, pode ser um lugar tão arredado de um quarto, mesmo que esse tenha uma enorme varanda. Está-se mesmo a ver a montanha verdejante, o mar sereno com o iate preparado, a campina de touros bravos, a cidade eloquente das mulheres de saltos altos. É que está mesmo ali à frente.

Abrem-se as portadas e mira-se, contemplando aquilo que se admite aos sonhos e jamais ao anseio terreno. Escolho, pelos vistos, até por que me mantenho de pés atolados no chão, não abrir as persianas. Sim, não entrará grande luz. Mas também não me controverto com sonhos da treta, escumando pelo ideal que escraviza.

A fórmula corrente, nos dias que passam, é de trancar tudo. Menos por de dentro. Assim, querer não é poder. Tanto me esperneio que hei-de virar tudo do avesso. Poder é querer. Mas só quando me “poder” toda. Por inteiro.

Se está certo? Pouco ou nada me interessa.

Se está errado? Nem tal ideia me passa pela cabeça.

Pois é por inteiro que paredes me agarram. Ainda.

Lu

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