10 março 2012

mas afinal?!


Já nem sei do que abdico. Se de mim ou se de ti. E quando escrevo para ti, há uma data de olhos que lêem que escrevo para ti. Ou para eles. Não é possível perceber, adequadamente, para quem afinal ela ou eu escrevemos. Se me escrevo tal qual sou ou se ela, enfim, não sou eu própria.

Isto tudo de ser eu própria é uma falácia imensa que discorre em linhas perfeitamente direitas e alinhadas. Umas seguidas das outras, como se tudo fizesse sentido. Uma lógica. A busca incessante de coerência nos objectos, sejam esses de que feitio for, desarranja a decência de se ser humano.

Precisa-se de fios que conduzam, parecidos com aquele fio do mito do Labirinto de Creta. Esse maravilhoso fio, que permitiu encontrar a saída do dantesco labirinto (assim se mistura termos de mitos e lendas, historietas contadas por gente de locais longínquos). Afinal o herói da história, que até ia casar com a sua amada, foi morto pelos seus amigos. E pior – pelo seu próprio pai. Lá se foi o fio, o bafo, o triunfo. Terá ficado o Amor?

Assim, pensem-se os fios condutores e de prumo. As linhas lógicas da mais clara coerência. A jogatina do tempo, que se enrola em procuras do outro. Não estaremos todos meios perdidos, agarrados aos fios, à procura é de nós próprios? E essa última expressão, assertivamente lançada, em cima uns dos outros, não será a maior preciosidade que nos faltará descobrir?

Ontem sentei-me no chão com ela. Olhei-a nos olhos, os que são grandes e eu sinto o que cabe neles. Ela faz-me pensar mais para dentro. Por isso gosto de me sentar no chão com ela. À noite e de cabelo apanhado. Poucas palavras bastam. Estamos completamente nuas em frente uma da outra. Existe esse carinho, acompanhado de cigarros, que se fumam com vontade, com certeza. E assim partilhamos os mesmos receios. De que se abdicamos diariamente, sem pôr em questão, afinal de contas?

Ambas concordamos que não pudemos viver de outra forma. Eu comunico-lhe que tentei ser diferente. Ela escuta-me. E admito que falhei, enumerando angústias prepotentes que transportei. E ela ri-se. E eu também. O certo e o errado são o mesmo lado, da mesma moeda. Concluo eu, a caminho do meu reinado, ao que torno e onde torneio tudo.

A lógica é um pilar, uma chave que serve de muito. Nem que seja na muita atrapalhação que causa. Os fios são restos traçados que nos agarram ao medo. O passado faz o chão. E tenha coerência ou não, o Amor não se sente ao olhar para o chão. Sente-se a olhar para o outro. Nos olhos ou nas letras, nas vezes em que tu me espreitas e a seguir te espreito. E depois ficamos perenemente nos olhos um do outro. Encontro uma cumplicidade que martiriza, mas sem a qual não sei se podia continuar a viver.

Mas afinal de que abdico eu? 

1 comentário:

  1. Se soubesses como é bom ficar suspenso nos teus olhos nunca dirias que te martiriza...

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