22 maio 2012

cordões enredados em milissegundos


Nada há como experimentar sensações. Uma delas, manipulada até despedaçar, é a da intimidade das coisas, dos sítios, das pessoas e das cores. De Janeiro até Maio o cenário muda, transmutação essa imperturbada pela circularidade do tempo.

Refiro-me ao bingo que se joga na fila de trânsito com que me atalho de manhã. Não vou nela e, no entanto, mas sinto-me fração acelerada daquele cordão de gente no sentido oposto. Há mais rotundas do que imaginava.

O tempo incumbe-se de premiar o dia com tesouros inigualáveis, só por que amanhã não estarão lá. E a imaginação pode então acontecer.



Hoje estava lá a mulher corpulenta, sentada de qualquer maneira, jogada no granito esfriado pela humidade de uma primavera de chuviscos de trazer por casa. Contemplava talvez o infinito, com os olhos colocados no rio Douro, presa num seu e muito próprio negalho que a segura à sua vida – aquela que desejava e não tem. Ar triste, costas entortadas, telemóvel na mão. Estupidamente, não podia sentir-se angustiada. Era uma resignada. É que os desejos são mais e mais.

Os desejos não podem ficar no papel ou escondidos por detrás da cabeça, cilíndrica de tanto novelo desejado, que se emaranham uns nos outros. Os desejos são ânsias. São excessivamente indeclináveis e têm de ser levados ao ponto de caramelo. Nem mais. Nem menos. Mas se forem menos, não passam de uma aguadilha adocicada.

Hoje lá estava a mulher gordíssima, torta, mal sentada e de semblante fechado, que contemplava, talvez e apenas, as tainhas do rio Douro, sentindo-se desolada pelo ambiente estar putrefacto. Estava resignada e nada tinha que ver com desejos. 

Ana

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