07 junho 2012

selvagens e outras serenatas

Irrompia de um estado moroso e tíbio. É sentido como um repente, que ela já não segurava. Prendeu-se, enclausurada numa azenha desconforme, sem que soubesse. Não que não guardasse no vestido vermelho os caóticos sentidos, díspares, mal controlados, de um sucesso mais pungente, por imaginar.

Foi como um tombo, que dava repetidamente, em palavras e frases marteladas ao longe. O vestido esvoaçava quando se punha à janela. No entanto, desconhecia o sopro que o fazia dançar. Bailes assistidos de atalaia, que por ora deixavam de o ser só por um ensaio oferecido à média luz do candeeiro que acendia de vez em quando.

Mas nesse lusco-fusco inopinado e tão atilado, esvoaçava mais ainda o rodado do vestido dela. Transfigurava-se em insensatez desmaiada, que a baldeava a mais letras e mais compassos de tempo – o tempo distinto e difuso, fugidio que não passa.

Não passava de uma queda, continuada e para ela não anunciada. Surpreendida, acometia-lhe às mãos substâncias magníficas, que de direitas e alvas nada têm. Só se sabem sem sons de tormentos declarados de outros. E há palavras que valem mais do que mil imagens. Há palavras com mais música do que uma orquestra. Ela sabia. E ele também.

Indomesticável espaço, ordenando o desfazer da caneta, adiado por muito tempo. O mesmo que deixa de importar por já não ser experimental. Ela ouve. Limita-se e deita-se numa espera de palavras, faz uma colecção impressionante de letras. 

O vestido pode ser o mesmo. É o mesmo. Só altera o quanto gira. São as palpitações incontidas. Fazem o pano saltar. 

Ele sabe. E ela gosta.





Ana

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