30 julho 2012

curta historieta que fala em coisas sem culpa nenhuma


Desleixo.

Paredes caiadas com as estantes no alinho mais obsessivo que pode haver. A ordem alfabética manifesta e caricata, só por de nada servir. 

– Assim é mais fácil procurar.
– Quem procura sempre alcança?
– Penso que sim, sigo o propósito da busca, contra-relógio. Sinto que lhe ganho por ter definido a ordem pelo cunho do alfabeto.

As frases curtas também marcavam a sinfonia da falta de delicadeza do alinhamento primoroso. Já nada era proferido que fosse novo. Tudo usado permite a arrumação, que por seu turno (sentado a ver quem passa), faz enfiar os dedos pelo cabelo, percebendo o seu desalinho, buscando escovas, pensando em cortá-lo curto de novo, deixando ideias de lado, adiando sonhos perecíveis de tanto serem arredados.



– O tempo não se deixa vencer por listas que fazes, por ensaios que teimas a opor-lhe.
– Mas…O que sabes sobre isso? Sobre o meu alinhamento?
– Planos desse género só me trazem à cabeça livros de cupões de desconto. Não lhes consigo dar valor.
– Não percebo o que isso tem a ver com…
– Obrigam, de facto, a essa organização de filtragem obrigatória, que passa por te lembrares das datas. Cansa. Desgasta. 

Mantém-se hirsuta, impecavelmente séria. Olham as duas a parede caiada, os livros alinhados por letras. Desejam ser pequenas outra vez, sem se perderem uma da outra.

– Fizeste-me chorar. Eu prometo que vou largar esta mania. Vou desalinhar os livros e deixar de olhar o relógio como um moinho de vento. 

Põe-lhe a mão na barriga. Olha-a de esguelha.

Foi-se embora de vez. Sabe ter sido implacável. Sente não ter tido outra escolha. Garante-se não olhar para trás.

Absolvição.

Ana

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