24 julho 2012

lista das letras maiúsculas


O Pessoa atropelou-se em pedras e castelos que erigiu, mais ou menos, certo da sua caneta. Em riste e de pé. É um homem intrigante que a esta hora toma café com o Saramago e discutem, calorosamente, a extensão da estupidez que decorre do Novo Acordo Ortográfico. Já Camões e as suas extensas manápulas, passadas por isso umas quantas vezes, deita-se de olho posto no azul do céu e carpe o terrorífico e jogral facto de nunca ter tido acesso à Internet. A Florbela passeia-se de bule na mão, escaldando chás trazidos das índias longínquas e em tons de rosa, suspirando amores enterrados por debaixo de uma sombra, lá no monte seco, onde tantas vezes usou e gozou do acto de ser herege consigo mesma. O Régio joga um xadrez inquinado à lupa com o Torga, contando bichos e encantos que se despedem dos sinuosos traços dos rochedos de granito. Um País tão curto, tão cheio de tudo. 



Escolho o olhar grave com que nos permitimos jamais encontrar estranhos em esquinas. Nós temos as Quinas. Cada canto é nosso. Corremos o Mundo. Assim, num tão cruel Fado de ter de partir à descoberta, conquistamos a Saudade. Nossa, só nossa. A languidez desenhada em Português. O daqui. Trucidado hoje. Mantenho a recusa, a negação, pois todos os senhores do Jardim, mais aqueles que não se arribaram, pensados pelos que ainda não saíram, olham, expectantes, o mais cálido Nevoeiro.

Hoje fico com eles. Uns no sofá, outros na varanda. Talvez leve para a cama o Paixão, que ainda ontem o vi contorcer-se com a mesma angústia do que a minha. Não lavo nenhum, não há água que aguente tanto Sal, nem sabão que disfarce o Odor. Não tenho presunção nenhuma a somar aquela já existente – olhos grandes, muitas histórias, mais abraços do que braços. Todavia, há a pergunta que não respondo com os lábios, nem tampouco com os olhos, pedaços meus, feitios globulares inconclusos para detença insubstituível. Já to disse, toda eu, mesmo antes do mo afirmares ao ouvido. O esquerdo.


Ana Luísa Monteiro

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