07 julho 2012

relógio das rugas - onde ias tu com tanta pressa?

A cidade distrai.

Oferece, de mão beijada, conluios espessos e espalhados. Faz o sentido das coisas ser pacote de pastilhas elásticas. Sabor a menta.

Andar nas ruas tem uma música própria, esconjura a passada curta-rápida, levada pelo trabalhar dos carros, pressas levantadas, pensamentos focalizados. Esses últimos são magnificentes ocupas, sem moinas que os ponham fora, recebem agradecimentos até do Excelentíssimo Bispo e nunca foram à Igreja. Nada precisam de Deus ou deuses e ninfas. Taparam a boca ao Buda. São apenas instrumentações de uma religiosidade atarantada. A fé em nada e prego a fundo. Nem tampouco se trata do divino. A fé expurgada de tal forma que se apagaram os contornos dela própria. Crê-se apenas numa imortalidade etiquetada num qualquer valor monetário. Nem o toma-lá da-cá detém os sonhos extremistas de um ideal seco.

Tentam matar a nossa língua.

Nas correrias amassa-se o tempo do relógio das rugas na pele. Nunca se envelhece, até algum dotado energúmeno se atenha na certeza de que alguém já não é lesto o suficiente. Joga-se o pré-primário, ceifando em laivos, gravemente, um céu que viu nascer Pessoa. Ninguém liga, ignorando que ninguém lhe ligará quando o vislumbre simples da humanidade desmaiar de repente nos seus braços.

A cidade não se compõe dos edifícios, esticados nas bermas das ruas alcatroadas. Isso é palco. A distracção assola pelos olhos de quem nunca vê.

Morre apenas quem não pode ser maior.


Ana Luísa Monteiro


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