30 agosto 2012

livros, onde estão?


Faltam-me livros. Perdi-lhes o rasto, sem nunca considerar essa hipótese. Sim, eu emprestei esses livros perdidos. Não os perdi simplesmente, como posso perder uma data de outras coisas. Já aconteceu perder roupa, por que tinha calor e não olhei para o banco, deixando lá um casaco, que naquele segundo, me era inteiramente dispensável. Já aconteceu perder um cinzeiro de praia, deixando-o para trás sujo, somente por abstracção. Já me aconteceu perder um anel, que havia guardado de maneira tão precisa e distinta que nunca mais o vi.

Já me aconteceu perder pessoas.
Umas que larguei, imitando a passagem do cinzeiro de praia ou até mesmo da peça de roupa, acrescentando a intenção de largar, deixar ir, não quer ver.
Umas outras, não desejei largar. Cessaram e, então, perdi.

Estas são vicissitudes da vida, que dão tratados, do bem e do mal, da dor e do prazer em conhecer-te.

Os livros, porém, são coisas que agarro mais do que quase tudo o que nos parece fazer falta: anéis valiosos de um país remoto, objectos utilitários que parecem estar lá sempre, peças da indumentária usadas numa sociedade consumista e emproada. Lembro-me de perder papéis. Sei que já perdi a cabeça, momento raro que escasseia após uso hiperbólico da mesma e por colecção de sigilos tidos nas conversas associativas e livres, onde a franqueza reina e até parece rir-se de mim.

Pois bem, posso assumir que na perda há um lado extraordinário de descoberta de não gostar de perder, onde se esconjura aquilo que não se quer mais. Rasgos de raiva caiados a frustração, sobrevinda do contratar que alguma coisa nos faz falta. E isso faz-nos querer não tornar a perder o que nos faz falta. Surge-me a obrigatoriedade do movimento de aproximação, imperativo e denso como um pedra de granito escuro, a fugir para o preto. De igual forma, fazendo peso, fica na memória e ficando aí até liberta das atitudes mais desatentas.

Os meus livros são todos importantes, até aqueles de que não gostei tanto, que não consegui terminar de ler, que se rasgaram ou estragaram por algum motivo. Perdê-los fez-me perceber que não tolero perder mais nenhum.

Talvez, peça fiança antes de mais. Ideia tola e despropositada. Talvez.

Ou então, o empréstimo só decorrerá quando confiar em alguém os meus tesouros, como quando desabafo um segredo, derramo umas lágrimas de cavada tristeza, rio cúmplice sem motivo. E isso sim não é passível de escolha. Ou é ou não é.


Ana Luísa

2 comentários:

  1. Sim… é horrível quando isso acontece :(

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  2. mesmo... já agora e a propósito a dica da app GoodReads acaba por ser algo que acho delicioso. obrigada =)

    beijinhos Liliana

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