05 janeiro 2013

curvaturas


Curvilínea. Desesperadamente curvilínea.
 
A linha do horizonte. A cabeça da gata preta. As costas que estão cansadas. A massa cinzenta. A vida sôfrega, desajeitada.

Demasiadamente curva. Apertada sinuosidade, em que pouco ou nada já é espanto. Isso seria que de quando em vez os cigarros não tivessem mau cheiro. Ou o álcool excessivo não provocasse ressaca. Ou que os pensamentos parassem, sem se dar conta. Poderia ser uma recta, de quando em vez, com objectivos precisos, presos à mão de semear. E semear-se-ia coisas simples, elegantes, exactas.

Mas é a porcaria da curva que ofusca. Não se deixa de pensar nela, num movimento obsessivo inglório, como se tratasse de uma nublosa busca por conceitos dos filósofos. Posso culpá-los, dilacerando toda a dimensão insubstituível do cogito ergo sum, preso pelas pontas. Só é necessário por se coadunar com a pressão exercida por balizas da humanidade.

A calma, a dita da paz, precisa mais de lobotomias do que se possa crer. Esse sítio difícil de persistir, oficializa uma decisão imperativa da convivência com o olhar a recta, ver-lhe o fim claríssimo, intrincar-lhe as palas escuras, largar o que há em vão e respirar com a barriga. Sem obcecações apartidárias e grandiosas. Essas são as da filosofia e respiram poemas por estrofes infinitas a escrever.


Por isso, talvez as folhas soltas, páginas por plenificar não possam obliterar-se – são crimes imperfeitos, indigentes, estritamente necessários. 


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