31 dezembro 2014

dia do calendário.

Primeiro, escrevi. Por algum motivo, apagou-se. Não fui eu. Simplesmente, deixaram de estar ali as minhas palavras. 

Estava escrito que eu não creio na mudança desta noite e nos balanços pré-definidos, nem nas uvas passas, nem no pé direito. Estava escrito que eu não uso o calendário, nunca me deu jeito. Eu tinha escrito que a meio de janeiro já ninguém se lembra de ser simpático como hoje e amanhã. Pois, eu tinha escrito isso tudo é apagou-se. Irónico. Como o tom de fundo que muitas vezes me premeia. 

Ser livre é abdicar do calendário. Sem culpas. Era isso que eu estava a dizer e depois aquilo desapareceu. 

Ser livre sai caro. 

Ser livre é fazer balanços quando bem se entende. E desejar a toda a hora. 

Não tenho desejos novos para esta noite. Só os que já tinha ontem, no meu "ontem" (e que grande ele está). Fará parte, isto de decidir que se vai mudar hoje. Fará parte da necessidade humana em definir a esperança, compactando-a num momento. 

Gosto de pessoas. Gosto da humanidade das pessoas. Sobretudo, consigo apreciá-la à distância. Qualquer telefone, Facebook e afins acabarão com isso. Mas hoje, brindemos juntos! Daqueles que têm tempo para nós! 


25 novembro 2014

Ele há coisas que fazem as pessoas mostrar que não têm nada que fazer


1. Fazer likes em páginas do Facebook completamente à toa, por causa da griffe, essa movida que faz sonhar as raparigas magras e as altas e os rapazes confusos e excessivamente musculados. 

2. Dizer mal dos políticos sem saber sequer quem eles são, de onde vêm, o que querem e para onde vão. 

3. Afirmar, com veleidade, que são espetaculares e por esse motivo podem articular frases feitas publicamente, como se fossem sábios ou génios da lâmpada (fundida).

4. Comer sushi e beber gin's de todas as espécies e cores, por ficar bem e por causo do estilo que manda segurar em copos de balão, quando os gin's antigos vinham em copos altos e estreitos.

5. Jogar às escondidinhas e às caçadinhas depois da meia-noite, por estar escuro e se ter bebido penicos e penicos de gin's azedos mas coloridos.

6. Ser cool sem ter um âmago, daqueles que são mesmo âmagos do ser-se pessoa, sem vergonha do que isso possa trazer ou ser. 

7... 8... Hasta el infinito!

A verdade é que eu perdi tempo a falar das pessoas que mostram que não têm nada que fazer. Perdi porque não deixo de me sentir zangada e frustrada. Preocupo-me em saber quem são as pessoas e irrita perceber que muita gente não quer saber de si mesmo. E hei-de eu? 

Eu perdi a vergonha. De ser como sou nunca tive. Perdi a vergonha de, decididamente, criticar os vazios ambulantes que vejo diante de mim. Esses mesmo que me vêem cansada. Hoje orgulho-me das olheiras que tenho!

E isto não é um manifesto. É um desabafo. 



03 outubro 2014

A César o que é de César

Há pessoas sempre iguais. São imutáveis. Permanecem. E sabem tudo. 

O tempo não lhes deve importar muito. Porque sabem, se calhar, sempre o código para quebrar qualquer dúvida ou questão ou problema ou mistério ou o que seja. 

Admirável. Admirável mundo triste de quem se ousa afirmar permanente. Pois nessa tristeza que isso me provoca, há um laivo de sapiência - não existe a inquietude, a herege raiva, a paixão eterna, o idealismo, o amor esteta, a eloquência da maior e enraizada cisma, a poesia. 

Afinal, a única semelhança humana é a ambição. Mas cada um terá a sua. E isso, a mim, não me apoquenta. 

Egoísmo à parte, só a minha me conduz. 



14 setembro 2014

Soluço

As minhas coisas fazem-me tanta falta. Estou com os pés enterrados em obrigações. Estou com as mãos atadas em listas mundanas. Não era nada disto que eu queria. Também não pretendia chegar a este lamúrio. Já nem há por onde fazer rebentar a impetuosidade de outros dias. 



Estou tranquila; apesar de tudo, ainda sei o que são as minhas coisas: são extensas num curto discorrer de palavras, que me assolam por provocações extemporâneas dos outros, das conversas interessantes, dos carros a passar depressa pelo meu, dos muros cravejados de gatos espraiados e sem nada para fazer (basta-lhes existir), das dúvidas intricadas sobre os pensamentos dos outros, das manias das pessoas em ter manias, das certezas sôfregas dos aflitos, das faces admiradas e esquálidas dos curiosos, das mulheres gordas e de mamas nuas na praia, do metro cheio de gente a cheirar a escravidão democrática, da solidão néscia após me despir sozinha na banheira, de correr atrás dos sonhos como quem tem rodas em vez de pés. 



Possivelmente, esqueci-me de infinitas coisas minhas. Não por falta de memória. Estas são apenas as que recordo mais contiguamente ao acto de fechar os olhos enquanto escrevo. 

De repente, parece que está tudo aqui outra vez. Até consigo sentir o cheiro da tinta e o coração a bater certinho. 




13 agosto 2014

Anda tudo com pressa, para cima e para baixo

Desde há pouco mais de um mês andar de elevador tornou-se frequente para mim. Já não é quando saio e chego a casa. Já não é apenas um dos dois elevadores que existem no prédio onde moro. 

Uso, com frequência, mais quatro, que são maiores. Um deles, o meu preferido tem um vidro estalado, como se fosse um corte perfeito que alguém fez ali, para dar conta de alguma coisa que se terá passado, na caixa do sobe e desce que a marcou de forma indelével. 

Por mais estúpido que possa parecer escrever sobre isto, aquela estaladela está ali todos os dias. É parvo, talvez rebuscado, ou até de loucos. Aquela rachadela relativamente comprida, quase perfeita mas que no fim (ou início) curva, visível a todos os escravos que se metem por dentro de caixas que sobem e descem, só vai desaparecer quando mudarem o espelho onde essa se mostra. 

Se isso acontecer, e por que não almejo ser boa pessoa, espero vivamente que o novo espelho, perfeitinho, como se fosse um gajo que faz a barba todos os dias, ou uma gaja que se pinta todos os dias, se estilhace em mil bocados. 

Sim, é isso! A mania da perfeição é um engano. E ainda mais engano se apresenta quando se acha que, após estalar o vidro, borratar o batom, rasgar as calças e partir a unha na porta do carro do namorado (por que estava empenada, culpa dele que não manda compor o raio da porta), as substituições por coisas novas vão correr tão bem que tudo vai ser imaculado. 

E isto... O meu pai já me tinha dito. 


20 junho 2014

prefácio

Há, sim há, pessoas que são livros. Os livros, que são um discorrer de folhas, cheias de palavras, que dizem tantas imensuráveis emoções. Até sentimentos. Até choques que se apalpam, que se tocam. 

Há pessoas que são livros. Há pessoas que são livros cheio de palavras que se dizem, que se calam, que se escondem. Eclodem. 

Há pessoas que são livros sem fim. Tão densas e compostas que há quem só lhes consiga ler o prefácio. 

Mas enfim. 


16 junho 2014

janelas por todo o lado

As coisas que podem acontecer num descampado, supostamente um sítio isolado, um ermo aparentemente insuspeito, são inúmeras. Dou por mim a relembrar quantas situações já assisti, de cima e ao longe, no palco acidentado que se espraia do conforto da cadeira onde fumo os mais longos cigarros. 

Por vezes, espio a vida dos vizinhos do prédio em frente. Claro que só se vê a vida da janela, que certamente é aquela que eles permitam que se veja. Ou, por outro lado, a vida da janela pode muito bem ser aquela que acidentalmente se mostra. 

Há sempre um voyeur, alguém a observar-nos. Por mais que nós possamos tentar esconder, tentar fazer esquecer ou até mesmo tentar fechar todas as persianas há, indubitavelmente, brechas, frestas, rachas, furos, buracos e outros que tais por onde deixamos que nos vejam. 

E isso será sempre de quem vê. Não nosso - é a indelével função humana de jamais ser ilha. Por mais que se tente, por maior que seja o empenho e por mais que a estupidez humana não possa ser concluída. 

Da mesma maneira, estamos sempre à procura de alguém que nos veja, pensando muitas vezes que só mostramos o que queremos. A mim parece-me um abuso, uma mania de sentirmos que controlamos a vida. 

É até ao dia - da liberdade. 


07 junho 2014

Faz-me pensar.

Incidentes acontecem a toda a hora. 

Infelizmente, tropecei numa situação que, não só me desagradou, como me fez ficar com um atónico sabor amargo na boca. 



O que se passou foi que conheci uma rapariguinha (inha mesmo) que acha que pode tudo. Pode tudo, conquista tudo, nada escapa. Pior do que isso - a rapariguinha sabe tudo. Pois bem que o meu ar há-de ter sido tão pasmo e quedo que a motivou a continuar, naquilo que posso denominar um surto de narcíciso, premiado a megalomania auto-orgasmática. Não, não é um diagnóstico. Só uma conclusão após o factual despejar de frases ridiculamente ocas de uma boca para fora. 



Pasma. Queda! 

Aquilo passou. O momento. Nem pude pensar mais nada, do que pensei, instantaneamente. 

Agora lembrei-me disso. Acudiu-me à memória. Dou comigo a lamentar. Há registos que escondem tanta coisa. Geralmente, quem canta do poleiro nem sabe bem o que o próprio do poleiro é. E a insegurança dá medo. E o medo só pode seguir duas vias. A da coragem. O do desvio. 

Mas para se ter coragem é, realmente, imperioso olhar para quem somos. Nos piores momentos possíveis. Nos melhores imaginados. Nos extremos. Esses mesmos que detestava quando tinha   20 anos. Mas isso era eu com 20 anos. Hoje entendo que saber viver não tem medida, nem cor, nem métrica. Hoje sei que se perde tanto, em vislumbres antecipados e que nada se pode fazer. O ganho é retomar. 

Gosto de incidentes. Fazem-me pensar! 


05 junho 2014

Os dead combo e os bailaricos

Pum. Pum. Trrrtaaataaaaa puuummm!




Foi com vontade que rebentaram cores em cima do rio, por cima das cabeças, ali mesmo no jardim das virtudes. Foi mesmo depois dos dead combo tocarem para nós todos, que estávamos ali a olhar e a dançar. A beber cerveja e vinho, tudo a 1 euro. A falar de tudo e de nada. A fumar cigarros e a sentir os odores uns dos outros. Também, com curiosidade, nos metemos nas selfies uns dos outros e rimos bastante. 

Somos todos tão diferentes e estamos encantados com isso. 

Uns usam rastas. Outros usam cabelos lisos. Outros nem se penteiam. Há aqueles que usam óculos, casacos de cabedal, sapatos vermelhos do feiticeiro de oz, câmeras nikon. 

Alguns chegaram ali de bicicleta (não passa deste ano comprar a minha). Uns de carro, metro, a pé. Outros de avião, de certeza. Turistas, turistas e turistas. Vêm ver a minha cidade. O Porto

Foi mesmo assim. Sem confusões da depressão desta dita crise. Sem culpas da treta. Sem preconceitos bacocos. Sem dramas, nem tramas. Sem enredos, nem mal entendidos. Sem pejo, nem trombas. Sem amuos, nem engates. 

Só pessoas. A dançar!

Pum. Pum!


01 junho 2014

Esta cena 'tá muito esquisita

Já há uns anos que ando a construir uma torre. Julgo que finalmente atingi o topo da construção da torre. Aqui não há grande barulho. Só aquele que permito. Aqui mando em tudo. Queres entrar? É que a cena 'tá mesmo muito esquisita e por vezes até acredito que nunca vai deixar de estar. 

Brinquei na rua. Li Miguel Torga. Vi as "Noites da Má Língua". Estudei piano. Parti um braço. Escrevi poemas aos treze anos. O meu cão morreu no meu colo. Tenho amigos há mais de 20 anos. Estudei, empenhei-me, fui aos exames todos. Trabalhei às 13 horas por dia. Bateram-me palmas. Porra, já me disseram que eu era a melhor. Também já me disseram que era a pior. Amei sofregamente. Chorei até me doerem os olhos. Passei horas a rir a bandeiras despregadas com o meu irmão e, por causa disso, nunca aprendi a andar de bicicleta. Lia livros de Psicanálise aos 15 anos. Saltei ondas na Nazaré agarrada às minhas primas. Sonhei dar a volta ao Mundo em balão. Fugi de casa. Menti aos meus pais. Nunca fiz o crisma. Rapei o cabelo. Usei saltos altos. Pintei os lábios de vermelho. Vi o "Eternal Sunshine of the Spotless Mind" mais de três vezes (ontem foi a quarta). Ainda hoje gosto dos "The Doors". Deixei tudo por Amor. 



Dizem que está tudo bem. Mas o que é essa merda? Desculpa lá! Está tudo bem? Podiam dizer cenas diferentes. Isto é como andares manco, ires ao médico, o mesmo que te vai mandar fazer exames e, depois de os ver, diz "Está tudo ok. Tome só estes comprimidos para as dores durante uns quatro dias, duas vezes ao dia, que isso passa." Aí perguntas o que fazer se as dores voltarem. E vais ouvir " Tome os comprimidos novamente, durante quatro dias, duas vezes ao dia!" As dúvidas assolam-te. Pensas até que o médico está a gozar com a tua cara. Olhas para ele e o homem está a sorrir para ti. 

A tua dor não existe. Ou melhor. Até existe. Mandam-te mascará-la com drogas feitas em laboratório. E de repente apercebeste - vem tudo feito. É só escolher. 

Fazes a lista: 
comida pré-cozinhada
áudio-livros
iPhones que têm a tua vida lá dentro
amigos da treta
gajos/as a engatar-te no facebook
"sei que te amo, mas esta merda dá trabalho e então não vai dar"
almoços de família em que estás de ressaca
chinelos importados do Brasil
cuecas made in Indonésia
roupa da Zara
colares de uma loja alternativa da Baixa
música que ouves porque toda a gente ouve e então públicas no facebook para teres imensos likes
"o meu pai deu-me um carro"
"a Catarina é gorda - mas gosto dela, é amiga" 
passam dois anos e "quem é a Catarina"
revistas de moda
iPad's e iPod's 
"não voto. não confio nos políticos." 
"quem? Luis Marques Guedes? Quem é?  É aquele que apresenta o telejornal?"
"antes de dormir vou ao facebook"
"ah, um dia vou ter sucesso; sou super inteligente."



E olha, etc. Detesto etc.'s. Aqui tem de ser. É a vida que é rápida. Eu vejo isto aqui da minha torre. Ironicamente, até por que o Sócrates, o Grego, é meu companheiro de quarto, cama e banheira   desde 1994 (se não entenderes vai estudar filosofia) a minha vida está lenta. Ficou assim. 

Resumindo tudo isto, apoio-me na grade da varanda da minha torre e concluo: "O meu problema é que esta cena 'tá mesma esquisita!!"


24 maio 2014

Ouvi um uivo já era de dia

Ultimamente os abraços são mais profundos. Desde a tua ida, os olhares são mais demorados, uns nos outros, com sorrisos lacrimejantes.

Inevitável falar de saudades. 

Tinhas a mania, tinhas a mania Elisa. Mas tu tinhas todos os motivos para ter a mania. Tinhas a mania de que os teus é que eram bons. 

Passam dois anos e reverberam palavras, misturadas com essa tua gargalhada, nas minhas mãos. Se te pudesse dizer que não sei que lhes fazer, quase que aposto que te ias rir de mim. 

É impossível não ter saudades tuas. Elisa. 


18 maio 2014

fugaz eternidade

Ela dizia-lhe que lhe estava grata. Menos pelas mentiras. 

Ele não dizia nada. Apenas lhe murmurava ao ouvido que não tinha tido outro remédio.

Ela virava a cabeça. E ele garantia que, apesar de tudo, ela era a mais bonita. 

Nunca mais se viram. 

Ele continuou com as mentiras. E ela com a beleza. Afinal eram eternos. 





12 maio 2014

imago

gostei-lhe as mãos, 
as que concluíam os braços
falando lentamente 
sobre coisas que eu não sei

gostei-lhe a voz
pus os óculos de ver
fixando a calmaria 
e o pejo desafinado 

gostei-lhe os lábios
que desenhavam um rasgo
mais ou menos constante
passando ao largo

existem hiatos na vida
moratórias do destino e 
há coisas que sei
outras talvez imagine. 





10 maio 2014

não sou fã. muito menos de pessoas-rápidas.

Sempre gostei de definições. Quando era pequena, lembro com alguma meiguice até, que lia o dicionário. Não sei dizer qual. Já nem tenho esse dicionário

As palavras têm sido importantes ao longo do meu caminho. Às vezes, tenho na ideia se seria capaz de estar um dia inteiro em silêncio. Depois, tenho a certeza de que seria uma experiência tortuosa. Gosto de falar. Gosto de ouvir as palavras dos outros. 

Hoje, como mote de muitos outros dias desta vida atrapalhada (mas divertida) que levo, acordei com um eco na mente. A palavra erudição não me sai da cabeça. Sim, tenho sido um caso raro de uma doença, igualmente excêntrica, de me apaixonar perdidamente por certas palavras. O processo é escorregadio, porque levanta-se uma palavra apenas e sou capaz de a pensar ao limite. Penso na sua definição, na etimologia dela mesma, nas partes constitutivas e fico totalmente presa a tudo isso. Muita vezes, nem sei explicar como se esvai. Infelizmente, já não escrevo todos os dias. A vida tem estado a distrair-me. 

O ribombar de hoje é a palavra "erudito". Não procuro poetas que falem nisso. Muito menos filósofos. Era preciso pensarmos mais pela nossa cabeça. Era preciso abolirmos alguns ídolos do altar. Será um problema individualista que trago comigo? Não sei. Não me preocupa tamanha acusação. Sei admirar os outros sem deixar de me prezar. 


O erudito é aquele que tem grande conhecimento. Pois é. Não será aquele que vê imenso cinema europeu e depois lhe dá uma nota qualquer, ficando por ali. Estático e inerte às sensações todas que aquela história contou. Ver o Almodóvar só por que o homem tem ar de louco e faz filmes com cenas estranhas e mulheres cheias de capas, não me parece válido. Eu vejo filmes dele. Gosto muito dele. Ele provoca-me emoções, sendo que essas são sempre perturbações da homeostasia. Quer sejam boas. Quem sejam más. 





O erudito é o consistente. Não segue ídolos. Segue uma sede invencível de saber. Preenche-se de tudo. Cisma por tudo e por nada, em perceber o mundo só por que ele está ali. O erudito não idolatra. Tem ânsia

Quem tiver dois dedos de testa, já entendeu que estou aqui a empinar o nariz. E estou, é inegável. E nada tem de ver com filmes europeus. Para europeia já chego eu. São as paixões que não me largam. As palavras. As ideias. As cismas. E os escárnios que rebentam em mim quando olho, de cima, para pessoas formatadas. 


08 maio 2014

tenho um sofá novo

Talvez nem todos saibam o quão Psicóloga Clínica sou. 

Pois aos que nem sequer sonhavam que a Ana que tanto procura o Tempo é dessas andanças e aventuras, cá está: novo blogue: O Blogue do Sofá! O meu mais novo menino está alojado, confortavelmente, no site www.thecouchconcept.com. 

O projecto é meu. Mais à seria. Mais profissional das coisas da mente. Aqui continuarei a contorcer palavras como me apetecer. 

Os bebés estão aqui em baixo:

http://www.thecouchconcept.com

http://www.thecouchconcept.com/-blogue-do-sofaacute.html





Agora é entrar e sentar. 


04 maio 2014

uma tosta de felicidade

A felicidade é bonita. Há tratados sobre a felicidade. Não sei de certeza, mas deve haver um Happiness for dummies nas prateleiras das bombas de galisona deste mundo todo. Frases feitas e constante busca pela dita da felicidade mais músicas para todos os gostos. E mais e mais filmes e documentários. 

Ora, para mim felicidade era asfaltarem a Rua da Maternidade no Porto, Portugal. Mesmo ali em Cedofeita. Era isso e uma caixa de Guyllian. 

O velhote dizia que a felicidade era o que cada um queria que fosse. Parece-me que o meu jogo de cartas mudou. Agora só quero coisas simples. E fáceis de pedir. 

No entanto, nem assim. Nem assim. 


(este post foi o mais perigoso de todos)

Lu 

27 abril 2014

Les Vieux Billets



Camadas de folhas amareladas
Guardadas numa velha caixa
Oferecida sem saber
Sem querer

Mostraste-a
Abriste-a

Ver conteúdos secretos
É como quem pode
Saltar pela cidade
Numa nudez extemporânea

Ler-te os versículos 
É como quem purga
Toda a tristeza das ruas 
Aquela terra batida

Petiz ainda que era
Percebi porém as tuas quimeras

Nada nos guia mais
Do que não saber nada
Neste carrossel imperante
Somando historietas negligentes. 


25 abril 2014

as pessoas e os trampolins

O Tomé tinha um amigo chamado Alberto. O Alberto era casado com a Rita, que tinha três cães de caça mas que detestava esse suposto desporto. Os cães da Rita não eram chamados à história; apenas servem para garantir que a Rita adorava cães e todos os outros animais - principalmente o marido. 

A Rita dizia todos os dias que o marido era um animal, por motivos muito válidos. Mas a Rita continuava com ele. Por causa de imensos motivos que nada tinham que ver com o Amor. O Alberto invejava o Tomé. Pode dizer-se que o Tomé era invejado pelo amigo Alberto pelo simples facto de se chamar Tomé e todas as outras coisas que faziam o Tomé ser um gajo cheio de sorte. Por sua vez, o Tomé estava apaixonado pelo Adérito mas não podia assumir por que, supostamente, o Tomé era muito macho, tanto que tinha uma tatuagem de um dragão que lhe ia do pescoço pelas costas abaixo. O Adérito tinha a mania que ele sabia tudo e que o Mundo e que estava tudo certo com ele, até porque ganhava várias vezes no bingo e o patrão estava satisfeito com ele. 

A Rita estava cansada de passar a ferro e contratou uma empregada. A Tânia. Esta última era perfeitamente dispensável, por que a Rita não fazia nada se não pensar como havia pentear o cabelo. O Alberto andava irritado por causa do futebol e das notícias e da baba dos gémeos (que eram seus legítimos filhos com a Rita). O Adérito andava a fazer análises de mercado, muito absorto do que se passava com a economia, mas alheado do que passava com a Vera. E o Tomé passava o dia a tomar chá na Boavista, com a companhia de amigas loiras e morenas, dos doces de leite e chocolate e também da revista GQ. 

Um dia, a Rita partiu um dedo à conta de tentar segurar um monte de cd's da Tuna da sua antiga faculdade, que resvalaram por causa da Tânia, essa incompetente. O Tomé partiu um prato na casa de chá, por ter ouvido alguém dizer que a Beyoncé tinha uma caso com o Obama. O Alberto partiu as trombas a um gajo que vendia telemóveis da candonga, só por que esse lhe pediu um cigarro, ele que tinha deixado de fumar! E o Adérito encontrou a paixão da vida dele. Pois, era a Vera, que se cansou e fugiu com o Litos para o Chipre. O Litos era jogador de andebol. O Adérito só encontrou a Vera depois de ver as fotos do Chipre no facebook. 

Conclusão, a Rita não passava de uma mulher de trazer por casa. O Tomé era apenas uma pessoa bastante nervosa. O Alberto era um brutamontes. 

Já o Adérito... Se querem mesmo saber. O Adérito... Meteu-se no álcool. E só por isso a Agustina bebeu aquela garrafa de vinho sozinha, seguida de dois shots de absinto. 

Só lhe restava escrever.




16 abril 2014

Ele há palavras que dão cabo de tudo

Eu gostava de ter um blogue daqueles de trazer por casa. Daqueles bem simplórios que falam do cocó do cão e do vizinho que teve uma inundação em casa. Eu gostava muito de escrever textos sobre o sr. da tv cabo, da mercaria que não tem panos da swiffer, do creme para as rugas. 

Na verdade, eu gostava muito de me preocupar com rugas e com o que comer amanhã. Gostava de fazer balanços que incluíssem as minhas expectativas face à falta que me fazem os tempos áureos. Eu gostava mesmo de acusar a vida de ser madrasta. 

Mas não consigo. 

Talvez por isso, tão poucos são os que me conseguem aturar nisto de tornear sentidos em montanhas de palavras. 


14 abril 2014

Conselho caricato e tardio (OMG) a esta altura do campeonato

Sempre ouvi dizer que

_pretensão e água-benta, cada um toma a que quer. 

No entanto, não será tão simples assim. Acho caricato, das variadas coisas que acho caricatas, que existam pessoas que fazem de tudo para chamar a atenção dos outros, em laivos de ridicularidade tão brutais que se fragilizam perante quem tentam oprimir. E acho que a piada está, sobretudo, em dizer isto e aquilo sem pensar que, talvez, as conclusões que se tiram são maioritariamente pela rama. 

_pela rama. Expressão que utilizo com regularidade. 

É que isto de andar no tempo, nada tem de ver com castelos no ar ou edificações de betão. Tem que ver com pessoas. Muito mais interessante. E, claro está, antes de olhar para o lado, gosto de me olhar no espelho. A fundo. Nem imaginam as coisas que esse nos devolve. Assim, logo de manhã cedo

_sem maquilhagem
_com os dentes por lavar
_sem a carteira
_nua. 

Por falar em nudez, refiro aquela que só faz sentido em casa 

_essas quatro paredes ao alto que onde estão todas as coisas que trazemos cá dentro. 

Obviamente que depois disto tudo e pela primeira vez neste blogue, vou atirar um conselho a quem o quiser agarrar

_deixem de projectar nos outros as merdices que trazem aí dentro. A isso, chama-se honestidade. A maior que conheço. 

É feio. Mas é mesmo muito feio cuspir onde já se foi feliz. 


04 abril 2014

como diz o Bon Iver: "and at the end of all your lines"



se a vida fosse uma linha, seria tracejada algumas vezes. outras talvez um traço grosso e preto, quase como um borrão. tantas outras seria talvez um arco-íris com muitas luzinhas a saltarem de umas cores para as outras. 

se a vida fosse uma linha, dou conta que muitas vezes deslizo em cima dela como em corda bamba. se tenho medo? imenso. mas lá sigo na linha fina ou espessada, preta ou colorida. não tem grande sentido perceber se vou à frente ou atrás. vou na minha, de braços abertos - quem precisa de ser agarrado tem de os manter bem abertos. acho eu.

e o medo? quando aparece, aprendi a responder-lhe "e a vida?"







02 abril 2014

espantos



...


é estranho e embaraçoso quando te dás conta que já não és capaz de discernir se cheiras a ti, ao teu perfume, às lembranças fugazes que ele te deixa ou se cheiras mesmo a chicla de algodão doce. 



de qualquer forma, os dias crescem, deixando atenuar a majestade dos adeus.


é rápido, muito rápido. 




23 março 2014

essencialidades do final do dia

perguntam por mim. 

eu ouço questões com profundo deleite. fico embevecida em saber que ninguém me sabe e quer saber. mas o que de mim está? o que de mim é? 

a roda-viva. 
a roldana oleada. 

quais ponteiros restam. perguntam por mim, mas não percebem que ponteiros tenho. não sabem senão as horas que parecem ter. 

verdade. ah, a verdade. que martírio. que deleite. qual crime não saber o tom do tic-tac. 

tenho coisas no regaço. são pérolas. são jóias. são flores e bagaço. parecem torpedos de dois gumes. cansaço. 

cansaço que me cansas e, de resto, me és tão reiteradamente essencial. 

perguntam por mim. quem me sabe? 


11 março 2014

si iu leiter beibi (de coração)

E eu sei que te vou amar. No final da semana, talvez. Hoje e amanhã tenho imensas coisas para fazer. Se no prazo que defini não conseguir, conta comigo no final do mês. E, por favor, não feches os olhos. Só te digo isto por que eu sei que te vou amar. Lá para o verão. Sinto muito não te abraçar mais cedo. Mas é que agora, neste instante em que te falo e que te vejo à minha frente, enorme, eu não posso. 



28 fevereiro 2014

as escolhas dos seres inanimados




HÁ 
indubitáveis perdas de tempo

desgastes da beleza alheia

ataques desmedidos ao prazer de sorrir dos outros

roubos de posições

desabamentos de ideais

abusos reiterados da imagem de terceiros

necessidades intrínsecas em aniquilar o que de melhor se tem

laivos arrogantes pousados em cima de um título conseguido por que sim




SENTE-SE 

urgência em publicitar movimentos 

gozo em tentar atingir 

quebrar o que nem sequer conseguiu subsistir 



FOI

fácil...


E como diz um querido amigo... as reticências são três pontos finais.







19 fevereiro 2014

cavalo de corrida

Quero que o cansaço morra
Que se extinga a correr
Pois devagar é um lugar falaz
Que não é

Como os olhos que já não se fita
Por motivos de alheamento 
Parecia um movimento
Lento, lento

Sem querer respirar fundo
Por ser compasso de aceitação 
Resta um silêncio absurdo
Que de lento tem apenas a impressão 

De jeito trôpego 
Sem que se possa viver
Impossibilidade de ser
Muda a métrica

Inventem-se montes de letras
Articuladas naquilo que se quiser
Resta um discurso qualquer
Num ápice, erigido. 

Quem denota, nota
Põe-se à escuta
Por querer saber
Por sentir

Mas a métrica que se alterna
O silêncio mostra isso
Os ouvidos são os mesmos
As telhas que cobrem também

Mas e dentro?
Estilhas enormes cravadas
Em mãos que com tanto jeito
As guardaram com doçura

Resta este cansaço
Atingido por cambaleios
Pois nem Aquiles resistiu
Ao veneno daquela seta

Já não vou.

29 janeiro 2014

aulas a preço de chuva

apanhei chuva, tanto hoje, tanta ontem. apanhei chuva mas ela não me apanhou a mim. fui rápida demais, assertiva em excesso, fulminante como um raio por entre as gotas. os raios não se molham. são energia.  

apesar disso, doem-me os ossos. sobretudo (não tenho nenhum) tenho podido correr bastante, ver bastante, ouvir bastante, falar bastante. lido assim, tenho bastante. dá para rasgar um sorriso. dá para dar uma gargalhada ou outra. 

e dá para concluir que mesmo no nada se ganha bastante. a palavra de ordem é caminho. sem elas nem eles. sem sonhos de 0,79 euros e desconto em cartão. não sei se é assim. deixei de ver tv. deixei de ir ao pingo doce. deixei de me preocupar com preços. embora não me tenha sido a sorte grande, saiu-me o bastante. 

e é assim que vivo. do bastante, não do que resta. vivo do bastante que posso ter. aos olhos de muitos é tão escasso e mísero. às minhas coisas bastantes - mãos, agenda, bolsos, carteira, gavetas, arrumos, adornos, no banco do carro - dou-lhes relevo cúbico. nada escapa. e assim nada sobra. não há sobras. nem tempo para sobras. 

é que estou a aprender a andar de bicicleta. e tenho um grande professor - o pneu furado. pelo que me constou esse também deu aulas teórico-práticas aos posts ego-concêntricos. não é meu hábito, mas a justificação fugiria ao bastante com que me divirto todos os dias. 

assim, anuncio que se vende bastante. dar já não dá com nada. com tanta redundância numa frase só, despeço-me  cordialmente. vou andar de bicicleta. à chuva. 

até quando? isso agora é que era bom. não digo. só porque não sei. a menos que me paguem. 








26 janeiro 2014

Constância

que horas são?
quando tens de parar para pensar
quando tens mesmo de tomar banho
quando tens de fazer as contas

que horas tens? 
quando sentes tudo embutido 
quando sentes tudo baço 
quando sentes o sangue frio

que horas serão?
quando entras pela porta
quando corres do norte ao sul
quando vês as duas estradas

que te dizem as horas?
estará certo e errado
sem pertença de tipo nenhum
que afinal cose e desfia

nessa cadência
as horas
dizem nada e coisa nenhuma. 


04 janeiro 2014

estupidez das horas

olho para as horas. acabo por ver sempre mais do que números-guia.

vejo aquilo que não me apetece ver. faz pensar que tinha alguma lógica correr o mundo ao contrário para se ficar sempre ali ou mais atrás. quem sabe?

mas e as metas? a minha é fácil - é esta do tempo em que sou aqui a edificação premente do que trago nas mãos. e são tantas as coisas que vou ter de as pousar.  

hoje posso tocar-te pela última vez. e até já te dei os cravos. estão aos teus pés. 

só posso dizer-te que me deixas uma herança fantástica - uma infindável colecção de memórias irrepreensíveis, felizes e consistentes. 

o longe não existe contigo Padrinho. 

"Ping – Promete-me que nunca me vais padronizar."

afinal era tudo uma questão de príncipe encantado, armado em salvador de uma mulher que nunca precisou disso. 

afinal era uma questão fácil. tinham tudo. 

MAS

ele padronizou-a. 

ela não admitiu. 

e ele partiu-lhe o coração. 

e ela desapareceu. porque corações como o dela partem de verdade por serem de verdade. 

ele ficou chocado. 

ela ficou... 

nada importa. ficou assim - tudo num perfeito silêncio de uma infindável estupidez de quem, por tão afortunados serem, se deixou mutuamente.