01 junho 2014

Esta cena 'tá muito esquisita

Já há uns anos que ando a construir uma torre. Julgo que finalmente atingi o topo da construção da torre. Aqui não há grande barulho. Só aquele que permito. Aqui mando em tudo. Queres entrar? É que a cena 'tá mesmo muito esquisita e por vezes até acredito que nunca vai deixar de estar. 

Brinquei na rua. Li Miguel Torga. Vi as "Noites da Má Língua". Estudei piano. Parti um braço. Escrevi poemas aos treze anos. O meu cão morreu no meu colo. Tenho amigos há mais de 20 anos. Estudei, empenhei-me, fui aos exames todos. Trabalhei às 13 horas por dia. Bateram-me palmas. Porra, já me disseram que eu era a melhor. Também já me disseram que era a pior. Amei sofregamente. Chorei até me doerem os olhos. Passei horas a rir a bandeiras despregadas com o meu irmão e, por causa disso, nunca aprendi a andar de bicicleta. Lia livros de Psicanálise aos 15 anos. Saltei ondas na Nazaré agarrada às minhas primas. Sonhei dar a volta ao Mundo em balão. Fugi de casa. Menti aos meus pais. Nunca fiz o crisma. Rapei o cabelo. Usei saltos altos. Pintei os lábios de vermelho. Vi o "Eternal Sunshine of the Spotless Mind" mais de três vezes (ontem foi a quarta). Ainda hoje gosto dos "The Doors". Deixei tudo por Amor. 



Dizem que está tudo bem. Mas o que é essa merda? Desculpa lá! Está tudo bem? Podiam dizer cenas diferentes. Isto é como andares manco, ires ao médico, o mesmo que te vai mandar fazer exames e, depois de os ver, diz "Está tudo ok. Tome só estes comprimidos para as dores durante uns quatro dias, duas vezes ao dia, que isso passa." Aí perguntas o que fazer se as dores voltarem. E vais ouvir " Tome os comprimidos novamente, durante quatro dias, duas vezes ao dia!" As dúvidas assolam-te. Pensas até que o médico está a gozar com a tua cara. Olhas para ele e o homem está a sorrir para ti. 

A tua dor não existe. Ou melhor. Até existe. Mandam-te mascará-la com drogas feitas em laboratório. E de repente apercebeste - vem tudo feito. É só escolher. 

Fazes a lista: 
comida pré-cozinhada
áudio-livros
iPhones que têm a tua vida lá dentro
amigos da treta
gajos/as a engatar-te no facebook
"sei que te amo, mas esta merda dá trabalho e então não vai dar"
almoços de família em que estás de ressaca
chinelos importados do Brasil
cuecas made in Indonésia
roupa da Zara
colares de uma loja alternativa da Baixa
música que ouves porque toda a gente ouve e então públicas no facebook para teres imensos likes
"o meu pai deu-me um carro"
"a Catarina é gorda - mas gosto dela, é amiga" 
passam dois anos e "quem é a Catarina"
revistas de moda
iPad's e iPod's 
"não voto. não confio nos políticos." 
"quem? Luis Marques Guedes? Quem é?  É aquele que apresenta o telejornal?"
"antes de dormir vou ao facebook"
"ah, um dia vou ter sucesso; sou super inteligente."



E olha, etc. Detesto etc.'s. Aqui tem de ser. É a vida que é rápida. Eu vejo isto aqui da minha torre. Ironicamente, até por que o Sócrates, o Grego, é meu companheiro de quarto, cama e banheira   desde 1994 (se não entenderes vai estudar filosofia) a minha vida está lenta. Ficou assim. 

Resumindo tudo isto, apoio-me na grade da varanda da minha torre e concluo: "O meu problema é que esta cena 'tá mesma esquisita!!"


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