16 junho 2014

janelas por todo o lado

As coisas que podem acontecer num descampado, supostamente um sítio isolado, um ermo aparentemente insuspeito, são inúmeras. Dou por mim a relembrar quantas situações já assisti, de cima e ao longe, no palco acidentado que se espraia do conforto da cadeira onde fumo os mais longos cigarros. 

Por vezes, espio a vida dos vizinhos do prédio em frente. Claro que só se vê a vida da janela, que certamente é aquela que eles permitam que se veja. Ou, por outro lado, a vida da janela pode muito bem ser aquela que acidentalmente se mostra. 

Há sempre um voyeur, alguém a observar-nos. Por mais que nós possamos tentar esconder, tentar fazer esquecer ou até mesmo tentar fechar todas as persianas há, indubitavelmente, brechas, frestas, rachas, furos, buracos e outros que tais por onde deixamos que nos vejam. 

E isso será sempre de quem vê. Não nosso - é a indelével função humana de jamais ser ilha. Por mais que se tente, por maior que seja o empenho e por mais que a estupidez humana não possa ser concluída. 

Da mesma maneira, estamos sempre à procura de alguém que nos veja, pensando muitas vezes que só mostramos o que queremos. A mim parece-me um abuso, uma mania de sentirmos que controlamos a vida. 

É até ao dia - da liberdade. 


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