09 abril 2017

As canas que seguram a gente

Afasto-me. 

Fico ali ao longe a olhar para o chão. Não olho para trás, por estar a fitar o chão, que me agarra, não me larga. 

Está calor. 

Posso sentir o sol na parte traseira das minhas pernas. As pernas escaldam e o chão não quer refletir nada. Vejo pedrinhas, pedregulhos, folhas mortas das árvores, pontas de velhos cigarros fumados, lixo. Os braços pendem ao lado do corpo, tal como umas canas de segurar o equilíbrio. As costas erectas parecem não doer e sustêm-se em todos os restantes músculos. O meu crânio pende para o chão. Não podia ver mais nada. Só aquele entulho de coisas que ninguém quer. Os olhos estão secos, a picar. O meu nariz dói-me por dentro. Nas narinas, há um fogo a queimar. A língua empurra-se contra os dentes, os meus, sem quer. Os meus dentes tocam-se. Os de cima com os debaixo e, também esses, se sentem esmagados, fixos, duros e inquebráveis. O meu cabelo resta ali também, apontado para o chão, calcando a parte de trás das minhas orelhas. 

Que porcaria. 

O chão estava imundo. Porco! Ninguém quis aquele lixo todo que está ali a sujar tudo. Ninguém o quis e já ninguém o quer. Mesmo quem se dá conta, não presta atenção àquela podridão gritante que está apenas e só ali no chão. O mesmo receptáculo dos meus olhos, para onde o meu corpo desagua em laivos pesados. Que nem rochedo do início do mundo. 

Penso? 

Ali não há a mente. Ali jaz o meu corpo, arvorado, recto, que não sente nada a não ser aquele peso indolente, granuloso, incandescente. 


  Image: @nidiavillaverde

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