03 julho 2017

Transparente

Hoje disse-te que o tempo não existe. Sei isso de cor e salteado. Porém, existes tu e todas as coisas que viste, que sentiste nos pés. Os mesmos que torceste tantas vezes. Deste tanto, mostraste tudo, foste incansável. Imparável. Tanto. Num rodopio, em linha recta, de tantas formas, que já nem te sabias. Tornaste-te transparente. Só tinhas roupas em cima de ti. E tarefas. Uma, duas, três... até ao infinito. Foste tanto que já nem eras tu mais. Eras tudo. 

E eu, que te vi chorar, abracei-te. Senti que tinhas 30 cavalos no peito, largados numa planície sem fim. Era tão estrondoso, que parecia que ias rebentar, que os cavalos iam irromper por ti fora. Rasgar-te o peito, dilacerar-te em pedaços, desse tudo que nem eras tu sequer. E nunca mais isso acontecia. Agarrei-te e disse-te que o tempo não existe. Então, acho que ficou ali um laçarote, agarrando-nos às duas, em que o tudo não é senão tu mesma, vestida de azul celeste, a domar cavalos e a coleccionar coragem. 

Coragem. Sim, eu sei que o tempo não existe! E por mais que ele te assobie, estridente, ordenando à correria que te obriga a aninhares-te aí no teu canto, não será certo que ele passe a existir. Ganha-se fôlego caminhando. Hoje podes vir as minhas cavalitas. 



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