13 agosto 2017

Coisas a cair

É mais fácil quando todos se calam e cai sobre mim este breu. Ajuda a ficar naquilo que se está a passar. 

Tirei os sapatos, os mesmíssimos que já não usava há anos. Magoaram-me o dia todo. A saudade é um pano somático escuro num dia com o sol a gritar. A saudade faz de tudo, como exagerar, como chorar prantos agoniados, como sorrir e correr dentro de casa. A saudade faz, também, um nada. Faz um silêncio, pausado e que de oco nada tem, nada é. 

Não atirei com nada para o chão porque não faço isso, a menos que me caiam coisas das mãos. Que me caiam as coisas das mãos. Das minhas mãos. Assim, recordo-me a pousar as coisas, nos devidos lugares, com certeza inabalável de que nada vai estar fora do sítio. Ali e acolá, lugares cativos de coisas que não são nada. 

Teria um certo glamour, daqueles vaporizados, de cortar a respiração, contar que me sentei no tapete de juta em frente a lareira, já agarrada a  um copo de vinho tinto, com as minhas unhas pintadas de tons pastel e com a blusa branca. Não foi nada disso. 

O que aconteceu foi sentar-me no sofá do costume, com as mãos a sustentar a cabeça, mãos essas que trazem já verniz vermelho estalado, um calo na mão esquerda e dores do pulso direito. Às vezes, acho que tenho um ferro quente, fininho como uma linha, a entrar-me no pulso. Lá se vai o glamour todo, até porque os meus cotovelos magros e escanzelados entram-me pelas coxas dentro e dói também. 

Dizia que me sentei no sofá. Fiz aquilo tudo que disse e, depois de um suspiro, para deixar sair o ar todo, aquela máscara toda, aquele teatro todo, recostei-me e dormi. Sonhei, como sonho a cada naco de sono, com coisas boas, coisas estranhas e coisas a caírem-me das mãos. A caírem-me constantemente das mãos. A escorregarem das minhas mãos magras, pequenas, com um calo numa delas, com verniz vermelho estalado, com dores de pulso, com dores estridentes que só me trazem à ideia um ferro fininho, quente, o grande estupor! 

Acordo para isso todos os dias, em golfadas de nervoso miudinho, em sobressalto de ter sonhado que tudo me cai ao chão. Ah, se cai. Terei mais calos ainda de as apanhar. Não há outro remédio e ate já sabem o que se diz em relação a isso. Até amanhã. 




Sem comentários:

Enviar um comentário