14 outubro 2017

olha lá a minha estante aqui

Isto de passar muito tempo em hotéis, táxis e aeroportos pode tornar-se solitário. Porém, nada tem de vazio. Há sempre pessoas a passar, com mais ou menos pressa, largando um ou outro sorriso rápido, quase cúmplice, como quem diz "olá, é isto que tem de ser". Às vezes, lá se pára por um momento, tornando uma conversa rápida, em que se deixam cair coisas perfeitamente aleatórias, com mais ou menos sentido, com mais ou menos densidade. A verdade é que há sempre alguma forma de encontro. E, por mais breves que sejam, não se pode ficar indiferente. 

Perco algum tempo, não no sentido de perda oca, mas porque me deixo levar, em devaneios coloridos sobre este e aquele, sobre os que vão passando. 




Em Barajas, recordo-me agora, ter estado a conversar com uma mulher nos seus sessenta, Peruana, que dedicou a vida a ajudar alguma das muitas comunidades religiosas a alimentar a população de Lima, no Peru. Dizia-me o quão difícil foi organizar tudo para arranjar arroz e milho para as pessoas. Contava-me que endureceu os dedos a amassar pão para as pessoas. Explicava-me o quão difícil foi arranjar um espaço e lápis para ensinar mulheres a ler e a escrever. Falava-me orgulhosamente do padre, do qual não me lembro do nome, homem trabalhador e preocupado, afirmava. Era pequena e morena. A sua voz era doce e sucinta, cheia de esperança. Quando entramos no avião, não a tornei a ver. Até hoje. Já passaram 5 meses. Verdade é que se a tornasse a ver, provavelmente não a reconheceria. Só a sua história me assalta a memória, de quando em vez, afincando-se feliz, prazerosa. Na minha cabeça, imagino-a no bairro de Callao, em Lima, que posteriormente vi de passagem, atarefada, inquieta e cheia de vontade, partilhando-se por uma causa nobre, deslizando pelo meio de caminhos castanhos e verdes, a contornar tijolos empilhados em todo o lado.  Com ou sem deus por trás. Posso dizer até que, para mim, ela passou aquilo tudo sem dizer que lhe doía a cabeça, sem se queixar dos joelhos ou das costas, sempre com roupas do mesmo feitio, o mesmo corte de cabelo, sem perfumes. Ali só erguia aquela vontade inabalável. Por ali, azafamada, sem tempo de lhe doer a alma. 

Passou. 

No final do dia, todos somos pessoas com as nossas estantes pessoais. Transporta-mo-las com noção clara de que, quando se apagam as luzes dentro de um avião (especialmente no voo de longo curso), o maravilhoso milagre de estarmos vivos está jogado ao ar, nas mãos de um qualquer bravo piloto. Sabemos que quando se acenderem, vamos estar perto do destino, o mesmo onde escrevermos mais algum pedaço para a nossa estante. E que no meio de tantas horas vazias, de olhares de estranhos, ar condicionado, microfones estridentes, barulho de avião, malas e maletas, poderemos orgulhosamente tirar uma história daquelas magníficas. Partilhamo-las mais connosco próprios. Detenho-me com este sentimento de que, na verdade, todos temos é saudades de casa. 

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